sábado, 19 de março de 2011

Rituais compulsivos.

Ainda me surpreendo que em todo final de novela, a maioria das noveleiras e noveleiros de plantão assistem na sexta e no sábado, o mesmo capítulo, e ainda por cima leem nas revistas, jornais e assistem outros programas de televisão com comentários sobre o episódio.

A paixão que algumas pessoas conseguem ter por estas novelas é quase que patológico, e eu digo quase porque ultrapassa o limite, a linha da patologia. É mais ou menos isso que eu pude perceber quando ouvi o relato de uma senhora que não perde um capítulo de novela nenhuma. Até aí tudo bem, mas ela tem Alzheimer, ou seja, mesmo assistindo todos os dias, quase não se lembra do que aconteceu no dia anterior.

Sua filha relatou "sabe o que é mais engrassado? Quando ela vê uma novela com alguns atores antigos e você pergunta qual o nome da novela, ela sempre fala o nome de uma novela que até já passou umas 5 vezes no vale a pena ver de novo.".

A rotina ultrapassa o plano do patológico e de certa forma é justamente a passagem do que é patológico para o natural, para o cotidiano é que encontramos ali, naquele sintoma, naquele sinal, a saúde da pessoa.
Retirar esta senhora da frente da sua televisão causa dor, angústia, estresse que não conseguimos compreender o porque. Parece que de certa forma o tempo não é mais medido em horas, mas em novelas. em cada quadro de cada episódio.

Uma amiga minha está parando de fumar e disse-me que conta os cigarros por dia. Tem a intenção de diminuir 2 por semana. Ela fuma atualmente 20 cigarros por dia. Semana que vem serão 18. Entre um cigarro e outro há um período de tempo que não é o cronológico, é o tempo da vontade. A vida dela é medida em cigarros. Disse pra ela como seria o tempo quando estivesse na ultima semana com apenas 2 cigarros por dia. Ela me disse sorrindo que o tempo seria quase uma eternidade, mas ainda daria para separar em noite e dia. 

Compreendi pela primeira vez o que era uma compulsão na explicação dela. É entre uma manifestação e outra que o ego, que a pessoa pode viver. Justamente quando acabar os cigarros ela terá que dar conta de uma vida sem interrupções, ou escolher um outro objeto que a ajude a marcar o tempo. Eu uso o café em meu trabalho...

No trabalho o café é como uma compulsão. Chego as 07:45 e fico até as 8:00 esperando o café ficar pronto. Só bato o ponto se tomar meu cafezinho. Atendo os grupos depois de outro gole de café, e depois dos grupos pego mais um bucadinho. É assim, no serviço o café marca o começo e o fim de uma atividade. É pelo café que posso identificar o quanto eu trabalhei (quantitativamente), afinal, se tomei muitos copos de café é porque fiz muitas coisas, se tomei apenas uma ou duas, é porque não tive mais de uma atividade, a qual me ocupou todo o periodo do serviço.

É assim mesmo, a gente em nome de uma saúde se apega a determinadas "manias" alguns com o café, alguns com a água, alguns com um petisco, outros com o cigarro, com a bebida, com a droga... 

Mas o mais legal disso tudo é que lá no fundo quando a coisa aperta, voltamos sempre para os rituais (fumar, ou tomar café) que disponibilizamos em nosso repertório para vencermos o dia a dia de cada dia. Somos todos compulsivos, alguns mais e outros menos. 

Já viram que tem gente que não consegue deixar de entrar em um ambiente sem dar bom dia? Ou ainda sem dar um sorriso e alegremente balançar a mão dos presentes e dar beijinhos nas presentes? Pois é, essa compulsão me irrita mais que cigarro!!!

Tem uns loucos que a reunião já havia começado há mais de uma hora, quando entra passa um por um, como que dando (ou recebendo) a bença. Não sei se a compulsão é em nome do ritual de pedir perdão ou de ser notado. Neste caso específico de um colega, para mim é apenas para chamar a atenção. 

Mas o mais importante de tudo isso é que indempendente de qual seja o ritual, ou para que ele serve, ele sempre funciona, sempre cumpre sua função. Marca um início de um novo período, de um novo tempo, até que o próximo comportamento esteriotipado seja manifesto, sempre, sempre nos protegendo da eternidade, sempre nos protegendo de uma continuidade infinita.

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