segunda-feira, 21 de março de 2011

O inferno são os outros - Sartre

Disse Sartre: "O inferno são os outros..."

Sim, é verdade, é infernal saber que existem outros, que existe sempre algo além de minhas capacidades, de minha forma de ver, entender, viver. É infernal (narcisicamente) eu ter que me reportar a um outro que não eu. É infernal eu ter que conviver com outros que vez ou outra me surpreendem, impedindo-me de ter o mínimo controle sobre as contigências de uma ou outra situação.

É infernal saber que eu além de tudo isso dependo destes outros. Que eu sozinho não sou nada, nem ao menos posso ser, é o outro e sempre o outro que me dirá o que sou. É infernal saber que até mesmo quando dizem o que não sou, preciso do outro para me compreender e me reafirmar como eu queria ser e como tenho sido. É infernal depender tanto do outro ao ponto de não existir de fato se não fosse um outro alguém que me colocasse na existência. Seja na existência orgânica, na cultural, social, ou em qualquer outro grupo, sempre, sempre dependerei de um outro.

É infernal ou é celestial?

Aqui começo a discordar do grande Sartre. A mim, é muito mais celestial. Porque é outro quem me da a possibilidade de poder, de existir, de viver, de amar além de mim mesmo. Contrariando a visão nihilista, de que os outros são de fato este inferno, venho aqui deixar um ponto de vista. Os outros não são um inferno, muito menos um céu, um paraíso. Eles são e simplesmente é isso.

A diferença entre céu e inferno estará apenas na forma de me relacionar com os outros. Isto sim pode ser um céu ou um inferno. Não é nem tanto a forma de ver o mundo, de compreender as relações inter-poessoais, ou um jeito de perceber as coisas. São as próprias relações estabelecidas e suas propriedades conscientes e inconscientes que irão dar uma sensação de celestial ou de infernal.

O outro pode ser infernal quando pega no meu pé por erros meus que nunca consegui superar, mas também pode ser celestial quando me dá novas oportunidades de mudança, mostrando-me as vezes ferramentas que tenho, ou que preciso ter, para uma melhora em minhas dificuldades. O outro pode ser infernal quando me critica e me julga sem compreender minha história, minhas dificuldades, minhas lutas interiores (as mais terríveis, diga-se de passagem), e também pode ser igualmente, ou as vezes até mais infernal, quando simplesmente me aplaude, sem ver meus esforços, ou sem ver a minha pessoa, valorizando apenas aquele momento.

Lembro de uma discussão em Análise do Comportamento sobre auto-estima e auto-confiança e como era interessante compreender que é justamente o outro quem me mostra quem eu realmente sou, para além de minhas qualidades e defeitos. Isso é uma relação celestial.

A qualidade do que é bom ou ruim nem sempre é tão visível como imaginamos. Na Igreja Católica os santos costumam ter uma boa ferramenta de diagnóstico para ver se uma relação é boa ou ruim: os frutos do que ocorreu com o passar do tempo.
Isto é evangélico. Uma árvore boa dá bons frutos e uma árvore ruim dá maus frutos. Na passagem do joio e do trigo Jesus ensina que devemos esperar crescer as duas plantas para que depois possamos identificar com precisão o que é joio e o que é trigo. Assim são nas relações humanas, muitas vezes somento com o tempo é que podemos compreender o que de fato foi bom, ou foi ruim. 

Aquele ditado poppular é certeiro neste aspecto: "queria ter o vigor da juventude e a sabedoria da velhice". É somente com o passar do tempo, com as devidas comparações, com um olhar menos carregado afetivamente de uma outra situação ocorrida, é que vamos compreender o que foi bom ou ruim. Outro ditado da sabedoria popular que expressa um pouco é isso tudo é aquele : "conte até dez". Contar até dez significa que você terá um tempo para digerir uma emoção, uma coisa que lhe afetou e que produziu reações químicas a nível celular, estas reações em determinados momentos tendem a controlar-nos nos primeiros 30 segundos, mas depois de passado os efeitos de todas as reações e sensações orgânicas conseguimos aos poucos como que recobrando a consciência, pensar sobre o ocorrido.

Pensar sobre um acontecimento qualquer em nossas vidas provenientes ou não das relações humanas que estabelecemos (contando nossa releção consigo mesmo) não é fácil, mas é possível. A cada segundo que passa iremos pensar de uma forma diferente, as reações fisiológicas irão cedendo, dando espaço para as reações cognitivas, para o "eu" responder. A cada ano que passa a probabilidade de perdão aumenta, a probabilidade de uma nova compreensão aumenta, a probabilidade de paz cresce infinitamente.

Para finalizar, São Padre Pio de Pietralcina, pouco antes de morrer disse a um cardeal que tanto o perseguiu por cerca de 50anos que graças a perseguição ele se tornou uma pessoa melhor, mais santa, mais justa. É isso mesmo, em matéria de relações humanas quem bate o martelo para dizer se foi ou não celestial é você. Lembrando que quanto mais tempo passa, mais celestial se torna.

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