terça-feira, 8 de março de 2011

Metaforizando o Humano.

     Já repararam o quanto nos comparamos com animais, coisas, outras pessoas, sempre buscando encontrar adjetivos exteriores para nos denominar? 

     É naquele momento em que precisamos nos encontrar, nos descrever, afirmar para nós mesmos ou para um outro quem somos nós que o ser humano busca em vão categorizar-se e ficar paradinho ali por um momento como se tivesse de uma vez por toda sido descrito, descoberto, catalogado e enfim, compreendido.

     O bonito no humano é justamente a capacidade de infinitar-se através das metáforas que acompanham seu discurso. Por exemplo as crianças que querem ser fortes como um leão, grande como um touro, rápidos como uma cobra. Sem nenhuma consideração do monstro que seriam, não, elas imaginam que podem continuar crianças, podem continuar como são, mas apenas tendo características de outro. as características escolhidas não as definem enquanto pessoas, pelo contrarário, marcam apenas um ponto do que são.

     Infelizmente a gente cresce e acha que agora, depois "de grande" não somos mais fortes como um leão, grandes como um touro, aliás, sabemos exatemente o quanto medimos, o quanto pesamos, e em alguns casos, o quanto de gordurinha em cm3 temos em cada parte arredondada de nossos corpos. Definimo-nos, ou melhor, depois que crescemos ganhamos a capacidade de ver-nos na realidade, de estancar a fantasia e a partir daí, morremos.

     Não é muito diferente uma criança acreditar que é um urso e um adulto pensar que tem sucesso. Acho que vou reformular, é muuuuuito diferente sim. A criança sabe que não é um urso. 

     Gosto da teoria de Einstein em alguns momentos. Este momento, para este post em especial ela me é formidável. Um adulto que tem sucesso, tem um sucesso relativo, sempre unido a uma característica que ele atingiu, que ele alcançou, deixando muitas habilidades, qualidades e defeitos para trás. Quem diz o que é qualidade ou defeito é a cultura, ele mesmo, muito pouco sabe sobre o que ele acha, ou quando quer algo que é diferente do que quer a sociedade entra em angústia. Ele não pode ser um urso, só de querer e deixar este desejo, ou vontade mesmo, transparecer para alguém já é taxado de louco.

     Já as crianças não. Elas sabem de sua força (até certo ponto - já tentei voar quando era criancinha) e não são ursos, mas sabem que podem criar-se a cada piscar de olhos, e que não importa tanto o que digam delas, elas sofrem sim com isso, mas muito além do sofrer, há um gozo particular em poder fechar os olhos e mesmo que em sonho poder voar pela janela a fora.
     Gostaria de deixar isso aqui no blog em forma de protesto. Não permita que as pessoas te digam o que é certo ou errado se você não concorda com elas. Argumente sem querer vencer uma batalha, apenas para ver o outro ponto de vista. Argumente como faz as crianças que mesmo ouvindo de seus pais que ele não é um touro, ao acabar a conversa, desce do colo do papai ou da mamãe  e volta a chifrar os móveis (ou o travesseiro se for mais espertinho).

     Freud havia compreendido muito bem esta característica de metaforizar-se para tentar encontrar algo de comum, algo que definisse quem somos nós. 

     Freud compreendeu melhor ainda que não há algo que nos defina, que somos indefiníveis ao não ser que permitamos que outros os façam por nós. Não somos nem amarelos, nem brancos, nem negros. Cada pessoa tem o seu tom de pele, mas de alguma forma o documento vem dizendo a cor. Então perguntei para o policial porque era necessário aquilo, ao que ele muito solícito respondeu, apenas para identificar você, ou seu corpo.

     É isso mesmo, ao ser identificado morremos, só podemos ser categorizados e ter o futuro 100% previsto depois de mortos. É disso que trata-se este post, pessoas que esquecem-se de suas épocas de infância em que tudo podiam e tudo faziam (mesmo que na imaginação) e em nome de uma categoria, de um documento (que é papel) se deixam morrer.

     E então quando percebemos que por mais metáforas que possamos incorporar não necessariamente conseguiremos nos definir, fica aquela sensação de vazio, de que alguma coisa deveria ser feita. Sim, deveria, mas não necessariamente este é um dever real, pelo contrário, continue com as metáforas, porém, simplesmente não permita devido a uma metáfora já incorporada ao seu ser, outras relativamente incongruentes não possam ajustar-se em você.

    

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