sexta-feira, 25 de março de 2011

Bem estar - um estado subjetivo.

CONTINUAÇÃO DO POST DE ONTEM: ADOECIMENTO E BEM-ESTAR


    A solução que pude encontrar está na simplicidade das relações interpessoais.

       Solução simples, enquanto resposta a um problema, mas na prática embora a resposta esteja dada, é necessário um fazer diferenciado daquilo que vem sendo feito até agora. Faz-se necessário uma nova forma de experimentar tanto as relações com os outros como compreender e por em prática novas formas de existir, formas esta que estão em potência em todos os sujeitos.

       Falo aqui de sujeitos humanos, Segundo Lacan, para que seja sujeito é necessário um outro, e depois outros outros, e assim por diante. Infelizmente são os primeiros outros que nos marcam mais profundamente e é a partir destas primeiras relações com eles (normalmente os pais ou cuidadores) que iremos ter uma impressão de como fazer nestas relações humanas. Tanto nas relações com os outros quanto com nós mesmos.

       O adoecimento então pode ser uma forma encontrada de repetir a única maneira bem apredida para conseguir uma atenção especial, um cuidado diferenciado. Ninguém fica doente fica doente pelo sucesso, mas o que ocorre, é que diante do sucesso pessoal conquistado com muito esforço, renúncias e lutas, quando não vem o reconhecimento esperado, todo aquele estresse tende a aparecer como uma forma mais primitiva de conseguir a atenção que deveria ter sido conquistada diante do sucesso conseguido anterior ao adoecimento.

       Quando digo sucesso, não estou falando de idéias ou trabalhos mirabolantes, claro que isso também conta, mas de um sucesso mais subjetivo, por exemplo: para um preguiçoso que se considera preguiçoso e que toda a família o coloca nesta posição, um simples acordar cedo e trabalhar o dia inteiro pode ser um grande sucesso. Para uma criança que não fala o reconhecimento e a atenção pode vir através de um balbuciar, nem é necessário uma palavra inteira. Para cada sujeito o reconhecimento do sucesso é na medida em que ele espera e não na medida em que os outros esperam dele.

       Já estou falando novamente dos relacionemantos humanos, tema frequente aqui no Blog.

       Os relacionamentos humanos são exatamente o que possibilita uma pessoa realizar um trabalho que ninguém deseja, mas se há um reconhecimento por isso, o trabalho é realizado até mesmo de forma prazeirosa. Reconhecimento tanto através do capital, mas também da família, dos primeiros outros com quem se tem contato e com quem se aprendeu a ser alguém, a ser sujeito.

       O adoecer é uma forma de reividicar uma atenção que não foi dada, que não é necessariamente uma atenção real, mas uma atenção imaginária que a pessoa achava (inconscientemente ou não) que merecia. 

       Já o bem estar, é um estado de estar bem e o adoecimento pode levar as pessoas a este estado não porque deseja sofrer, mas porque, e exatamente por causa disso, a pessoa deseja uma atenção na qual não teve em seu empreendimento particular, mas que agora pode ter na posição de doente. 

       Estar doente então não necessariamente é oposto ao bem estar. Pode-se estar bem mesmo na doença, isso porque uma coisa é adoecer e outra coisa é estar bem. São planos distintos que embora eles possam se cruzar (organico e mente) mesmo assim tendem a estar cada um exercendo a sua função. E qual é a função de ambos?

     Tanto corpo quanto mente, e ainda o espírito, tendem para a vida, tendem para o prazer da vida. Não para a morte. Um adoecimento pode muito bem salvar a vida de alguém. Há casos e mais casos de pessoas próximas que passam por um longo período de adoecimento e depois que melhoram tornam-se outra pessoa. Tudo porque houve ali uma demanda suprida, a demanda da atenção, a realização de um desejo inconsciente (qualquer que seja este desejo, mas no caso, gostaria de ficar apenas com o desejo de ser percebido, o desejo de existir para o outro que nos permite saber que existimos).

       Não há no entanto uma forma mágica para deicar de adoecer. Na realidade Lacan ensina que os sintomas podem ceder quando a libido encontra outro objeto para se ligar. Quando a pessoa está nesta situação, faz-se necessário encontrar outra forma de existir, outra forma de conseguir a atenção tão desejada pelo doente.

       Acho que o filme que expressa isso muito bem é o filme que conta a história da Camille Claudel, que adoece buscando o reconhecimento de algumas pessoas. Mesmo tendo este reconhecimento em determinado momento do filme seu pai (que a reconhecia como artista) em determinado tira todo este reconhecimento e ela cai no fundo do poço, adoece ao ponto de não encontrar um chão, um amparo para sua existência.

        O que acontece então com Camille é o que acontece com todos que chegam ao desamparo real da existência, é necessário reconhecer-se de outra forma. É necessário uma nova forma de viver, uma nova forma de existir. Mesmo que na dor, encontra-se um suposto bem-estar na medida em que ela simplesmente desiste (não existe mais para) de ser reconhecida. 

       Fica aí a dica de um ótimo filme sobre um adoecer psíquico.

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