quinta-feira, 24 de março de 2011

Adoecimento e bem estar.

       Um tema muito interessante que podemos discutir aqui no blog é com relação ao adoecimento e a possibilidade de bem estar que este momento pode trazer para a vida das pessoas. Adoecer segundo a cultura consciente é ruim, é perigoso, gera medo, dores e traz muitos prejuízos e limitações para a pessoa doente.

       Tudo bem, estamos falando de um plano "da consciência" onde a razão diz que se há alguma privação da liberdade de fazer o que se quer, o que se deseja, esta privação é sempre vista como ruim. Por exemplo, nos casos de doenças onde a pessoa fica acamada, mesmo que por um curto período de tempo, racionalmente todo aquele mal estar é uma privação da qualidade do que consideramos como liberdade. Não se pode sair de casa, não pode trabalhar, não pode ter muitos contatos com outras pessoas, fica-se como um bebê, muitas vezes na cama, em uma situação na qual apenas os familiares ou amigos mais íntimos é que tem a possibilida de ficarem por perto.

       Groddeck explicava mais ou menos isso em seu trabalho. O adoecimento nem sempre é ruim, pelo contrário, muitas vezes os benefícios de um adoecimento fazem com que a pessoa não possa fazer "tudo" o que poderiam fazer, mas por outro lado, gozam de um momento em que são tratadas com um carinho e atenção que normalmente não teriam no dia a dia. O adoecer, quando recorrente, pode ser um sinal de uma tentativa de uma reestruturação da afetividade perdida.

       Quando as pessoas passam por momentos de crises e conseguem superar o problema, logo surgem também as doenças provenientes daquilo que chamamos de queda imunológica devido ao estresse. O adoecer muitas vezes não consegue ser explicado por um exame clínico médico. O que aparecem são os sintomas e com eles surge o diagnóstico de uma virose, ou ainda, uma alergia. Em alguns casos mais graves até mesmo um câncer.

       Devido a uma suposta perda da imunidade devido ao estresse excessivo, a pessoa pode regredir a um estado mais frágil, onde os cuidados com ela devem ser redobrados e efetivos. Estes cuidados podem ser encontrados nas famílias, na escuta de um médico, no serviço do posto de saúde, ou em outros lugares. O que importa é que alguém de alguma forma dá atenção, e é exatamente isso que uma pessoa neste estado precisa. Precisa de um outro, alguém que faça esse acolhimento da demanda de atenção e de cuidado.

        É importante ressaltar que não estou falando de um adoecimento consciente, de uma vontdade real de adoecer, mas que talvez, em muitos casos, a doença pode ser um desejo inconsciente. Não que a pessoa queira ficar mal, ficar doente e até em alguns casos chegar perto da morte. Não estou falando aqui de um desejo de sofrer ou de uma espécie de auto punição. Estou querendo apenas clarificar que o adoecimento faz com que a pessoa possa reexperimentar um momento que exige cuidado de um outro. Que exige que um outro olhe para ele e de alguma forma, este perceba-se como existente, como pessoa, mesmo que na posição de doente.

      Talvez eu tenha extrapolado por demais o desejo inconsciente de ser percebido, de ser compreendido como existente por um outro, no parágrafo anterior. Tudo bem, confesso que pode ser que o aodecimento seja apenas uma forma de pedir cuidado. Um pedido de cuidado, de carinho, de atenção que um adulto por exemplo não pode chegar a um outro e pedir (ao menos não em nossa cultura), portanto, a forma que alguns encontram é o do adoecer.

       Mas se pensarmos bem, de acordo com a teoria psicanalítica freudiana, o que é o sintoma senão um mal-estar no qual há uma demanda voltada a um outro. Explico melhor: quando há um sintoma, ele nunca é apenas da pessoa que sofre, mas é um sintoma que está intimamente ligado à uma relação entre o que sofre e um outro, que de certa forma, faz sofrer.

       Por exemplo, nos casos de neuroses, há um conflito entre "o que eu quero" e "o que o outro quer de mim", lembrando que este outro pode ser a sociedade, uma empresa, uma cultura, ou uma pessoa. Este fazer sofrer não é intencional, por exemplo, nos casos atendidos de menores infratores, uma das medidas que o Juiz determina é o retorno aos estudos. O mal estar manifesta-se frente ao desejo de continuar em sua vida de criminalidade e o desejo de realizar a medida e livrar-se do "castigo" dado pelo Juiz. De fato, estudar não faz mal a ninguém, o Juiz até segundo o ECA e a nossa cultura está realizando um "favor" ao adolescente, mas para quem não tem o desejo, realizar uma tarefa até o fim, é quase impossível. Gera um mal-estar porque o desejo não está ligado ao estudo em si mesmo, o estudo é algo profundamente aversivo em alguns casos atendidos, mas é algo que os adolescentes DEVEM passar para realizar o que lhe é imposto por um outro, caso contrário, vem o castigo da internação por motivos de descumprimento de medida.

       Acho que facilitou um pouco a compreensão. Pensando agora no adoecimento como um mal-estar, como um sintoma, o problema é que muitas vezes a pessoa adoecida que demanda carinho e cuidado de uma outra pessoa, muitas vezes não tem a outra pessoa disponível para atendê-lo. Aí o adoecimento pode tonar-se crônico.

       Enquanto o adolescente infrator pode reportar-se e responder ao Juiz causador do mal-estar, muitas vezes a pessoa que adoeceu não encontra um alguém para reportar-se o que torna o adoecimento de certa forma racionalmente "sem sentido". Ainda há os casos relatados na psicanálise (como o do próprio Groddeck) em que não se pode reportar-se ao causador do mal-estar.

       Qual então seria a solução para um bem-estar frente ao aparecimento crônico de uma patologia?

       Ainda nesta semana a resposta... No entanto, as pessoas podem deixar comentários com as possibilidades: passo a bola para os leitores por enquanto...

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