segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A dor de um andarilho silencioso.

“A esfinge com seus enigmas, obrigou-nos a deixar de lado os fatos incertos, para só pensar no que tínhamos diante de nós” (Creonte em Édipo Rei; Sófocles).


A tristeza que abatia aquele senhor que chorava era impenetrável por qualquer espécie de técnica que tentasse silenciar seu sofrimento. Suas dores eram dores do homem, não as dores de suas mãos feridas, muito menos a dor de fome que o atormentava imensamente. Viam-se suas costelas, seu cheiro ruim acusava sua situação de alguns dias sem banho, sem banheiro, sem casa; mas isso tudo era apenas uma armadilha para tentar disfarçar o que realmente importava. Seu coração estava mergulhado na profunda dor de perdas e mais perdas, esta dor, ninguém podia ver, e ele acreditava que ninguém podia tratar. Era ele hoje um mendigo, que ninguém queria saber sobre ele, sobre sua história, sobre sua jornada. Da parte dele, ele tinha tanto parta falar, mas ninguém ali naquele lugar conseguia ouvir.

Tentou falar por duas vezes o que o afligia, mas naquele lugar, assim como em todos os outros lugares, apenas o que era visto, sentido, percebido estava sendo tratado. Quanto às dores de sua alma, por serem invisíveis, eram tomadas como inexistentes.

Tomadas, do verbo tomar, absorver, engolir. Aquele homem era engolido, como as feras famintas fazem com suas presas, ele era isso, uma presa, ou melhor, um preso em sua carapaça de ferida, sujeira, mau cheiro. As cicatrizes em suas pés denunciavam seu estilo de vida, um homem que provavelmente venceria qualquer maratonista em uma prova de distância, seus pés eram uma pura crosta, misturado aos calos secos alguns cortes e cicatrizes mostrando que ali já houve a pele de um homem comum. Homem comum que deixou de ser há muito tempo.

Uma moça chegou à beira de seu leito e disse-lhe, com voz suave, sei que está doendo muito, mas o senhor vai ficar bem, vamos tratar do senhor e logo logo poderá voltar para sua casa.

Ainda mais lágrimas verterem daqueles olhos queimados, ele aparentava ser cego, mas por alguma razão parecia que enxergava, pairava a dúvida em todos, ninguém conseguia fazer um diagnóstico sem ouvir daquele homem, sem ouvir de sua boca se ele era ou não cego.

Virou a cabeça em uma última tentativa para falar algo e a mulher logo correu ao seu encontro dizendo: não fale nada, deite-se aí para descansar, deve estar cansado, com dores, já colocamos remédio em suas feridas e o senhor tem que se comportar para que os curativos façam efeito.

Era a terceira tentativa de falar, mas aquele homem recebeu aquelas palavras como sentença de morte. Sentenciado a descansar, em anos nunca ouvira alguém dizer isso a ele, descansar, deitar e dormir, e talvez nunca mais acordar, esta era a vontade daquele homem que apenas queria alguém que o escutasse.

Este texto retrata a história de um, entre vários, senhores atendidos por uma comunidade católica aqui de Londrina.

Tinha marcas em todo seu corpo, era silencioso, quieto, chorava muito, sempre arredio a qualquer tentativa de contato humano. Sempre que precisou de cuidados para sua saúde alguém ligava para a ambulância, ele era abandonado na porta de algum hospital e lá alguém fazia alguma coisa.

Quando jogavam ele pra fora da ambulância, ora era atendido, ora deixado ali jogado, ora era mandado a outro lugar. Teve uma vez que desmaiou na rua e um carro passou em cima de sua perna. “Não me lembro do que aconteceu, mas me disseram que fiquei sangrando com os osso a mostra por uns 30 minutos, o dr até disse que era milagre eu ta vivo, eu acho que é maldição”.

Comecei a conversar com ele e assim como os outros que eram atendidos naquela casa, todos tinham uma certa queixa pois ninguém os ouvia, era cuidados, tratados e depois iam embora, melhor ainda se chegassem e saíssem em silêncio.

Eu insisti que agora as coisas haviam mudado, que ele podia falar comigo, que eu estava ali pra ouvir, pra conversar, e então ele, meio assustado: “você que ouvir um mendigo? Um doente mental? Um andarilho? Um abandonado? Um mal caráter?”

Começou a chorar, e eu falei que talvez ele fosse tudo aquilo mas também era uma pessoa e que eu gostava de conversar com as pessoas, saber suas histórias, ouvir eles falarem, e que se ele quisesse eu iria voltar pra visitar ele.

Fui para um outro lado onde haviam mais mendigos acolhidos jogando dominó. Sentei em uma cadeira, acenei com a cabeça como que pedindo permissão pra sentar, sentei ao lado deles e fiquei cerca de 40 minutos, até a hora do café.

Quando o café foi servido sentei ao lado daquele senhor que não falava, suas lágrimas denunciavam suas dores, caiam de vez em quando, entre cada gole de café.

Terminado o café voltei para a cadeira, estava ocupada e eu precisava ir embora, quando eu estava saindo, ele estava no portão, olhando lá pra fora, parecia um ar de medo, de receio, de saudade, não sei o que era, mas tinha um afeto muito grande ali. Ele então me disse com voz meio rouca:

- Sabe o que é Marco, você ainda é jovem, vai aprender muito na vida, as dores do corpo a gente cuida, mas a dor daqui de dentro parece que não tem como acalmar. Me desculpa se fui grosso, mas é que a vida me deixou assim, doente, mal caráter, virei andarilho, mendigo mesmo. As pessoas acham que a gente tem fome, tem sede, mas na verdade as vezes a gente só quer alguém pra conversar.

Sorri pra ele e disse que ganhara meu dia pois ouvi dele, da própria boca dele que a vida tinha deixado ele daquele jeito, mas que ele não era assim, como muitos pensavam. Falei que retornaria, mas quando retornei ele já não estava mas lá, havia voltado pra rua, em silêncio, com seus segredos.

Para Fechar o Post, retomo a citação da obra de Sófocles com um comentário, as vezes a gente acha que as pessoas querem tantas coisas, casa, dinheiro, carro, drogas, remédios, quando na verdade, lá no fundo, tudo o que precisam é de alguém para conversar, de alguém que lhes dê a chance de falar de si. O dia a dia é o pensar no que há diante de nós, muitos ajudam com comida, remédios, mantimentos., Pouquíssimas pessoas no entanto se aventuram na incerteza de ouvir, de sentar do lado e entrar na conversa incerta de um final feliz.

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