sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Olhares

"Os olhos são a janela da alma"

Acho interessante começar com este ditado. Em um dos tópicos anteriores havoa falado sobre o toque, o primeiro contato que temos com os outros.

Quando nascemos somos primeiramente como diz Freud "Um ego corporal" ou seja, somos todo toque, somente corpo. Somente a posteriori conseguimos enxergar, ouvir e compreender o que vemos e ouvimos.

Tanto o contato tátil quanto o sonoro desperta nos bebês uma reação clássica, eles viram o rosto e buscam contato visual com o que está ocorrendo.

O olhar é como que uma reação ao que está ocorrendo ao nosso redor. A única coisa que não pode ser mentida, não pode ser disfarçada, por mais que se tente há no olhar do humano algo de biológico que nossa mente até pode controlar, mas controlando este dispositivo engana-se aos outros e também a si mesmo.

É pelo olhar que se reconhecem pessoa boas e pessoas ruins, é pelo olhar ou pela falta dele que temos de certa forma uma primeira impressão sobre a pessoa.

Certa vez em uma viagem conheci um rapaz de origem árabe que me disse que jamais esquecia do nome das pessoas, perguntei como ele conseguia e ele me disse que havia aprendido com seu pai uma técnica infalível, ele apenas olhava nos olhos das pessoas e sabia quem era quem. "É pelo olhar que reconheço alguém pois por mais diferente que a pessoa esteja ainda sim terá algo de único que é a impressão que me causou." disse-me o rapaz.

Achei aquilo tudo muito estranho, duvidei pois sabia que uma primeira impressão é sempre uma primeira impressão, nada mais. Havia apenas pego carona com ele, era namorado de uma amiga minha do trabalho, fui embora e não nos vimos durante uns 20 dias.

Quando eu estava na rua indo ao shopping parou um carro e o motorista me chamou. Era ele, o Hassan perguntando se eu não era o Marco amigo da Sonia. Sim, era eu, e eu não tinha a mínima idéia de quem era ele.

Aí ele me disse que nunca esquecia um olhar, lembrei-me quem era e fui embora de carona.

Realmente caros leitores, a imagem de um olhar diz mais que muitas palavras. Lacan diz que as pessoas são muito além daquilo que comumente as define. Dejours irá falar sobre um ser humano que é sempre devir, sempre indefinível, sem um amago, uma essência primeira.

Concordo com Lacan, somos muito mais do que as pessoas nos definem, mas também, não podemos nos esquecer deste impacto que é nosso olhar. É como se fossemos na verdade apenas esta impressão que toca o outro, sem definição e que está além de uma ou outra característica. Somos aquilo que transmitimos com nosso olhar.

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