terça-feira, 15 de setembro de 2009

A PSICANÁLISE E OS SUJEITOS HOSPITALIZADOS

V

Diante do insuportável somos convidados a incorporar o saber sobre o que fazer e dizer diante da dor, do sofrimento e da morte. Somos depositários de um saber de algo que não sabemos. Temos que ter clareza de que temos um lugar de saber específico e só podemos intervir na falta.” (ELIAS, 2008)


A função da psicologia diante do outro que se vê em um estado de hospitalização á a de assegurar a este que continue lutando e tenha forças para a vida independentemente de uma vitória ou derrota frente a um tratamento ou uma doença. Devido ao estado de debilidade e sofrimento em que muitos sujeitos se encontram nos Hospitais a psicanálise vem fazer um movimento para tentar assegurar também que o individuo continue a sonhar e desejar mesmo sem muitas vezes ter sucesso em seus desejos mais imediatos.

Não é função do psicólogo dar certezas ou incertezas sobre a cura para o sujeito que sofre. Não pode ser dada esta certeza sobre a cura do corpo que é objeto dos cuidados dos médicos, e também, o psicólogo não deve dar certezas sobre a cura da psique humana que é a real demanda para a atuação do psicólogo. Embora o sujeito deseje parar de sofrer tanto quanto vem sofrendo, o psicólogo deve ir além deste sofrimento, e permitir que a transferência faça o papel da reorganização e reconstrução do sujeito.

De acordo com MORETTO (2001), nem mesmo a instituição hospitalar sabe muitas vezes o que deseja do analista, o que ela sabe é que há uma grande demanda, mas não sabe o porque e muito menos o que o analista irá fazer com isso.

Na hospitalização, embora haja dor física, na maioria das vezes ela vem acompanhada de um sofrimento psíquico do paciente. Este sofrimento é a matéria com que o psicólogo deverá trabalhar. O sofrimento pode ser percebido em todo o contexto hospitalar, no paciente hospitalizado, nos cuidadores, equipe médica e também em outras áreas do hospital. A posição do psicólogo hospitalar não deve mudar de forma alguma. As relações a serem estabelecidas no ambiente hospitalar devem ser sempre de escuta analítica.

Em outras palavras a situação de hospitalização que ocorre devido ao ambiente do hospital, será sempre seguida de um sofrimento, de uma dor. Esta dor pode ser apenas física, mas também pode ser uma dor psíquica. Sempre será encontrado dentro do hospital material para fazer psicanálise pois em um momento ou em outro, os conflitos e as angústias, seja do paciente ou da equipe, uma hora irão aparecer.

Embora o local seja diferente e o setting analítico também esteja de certa forma comprometido, a psicanálise dentro da instituição hospitalar deve fazer o mesmo que faz na clínica, a escuta analítica.

A escuta analítica não deve ser apenas uma ferramenta para ouvir o sujeito em análise, mas antes de tudo, é necessário escutar toda a instituição hospitalar. Considerando a instituição hospitalar como um sujeito, poderemos encontrar dentro de seus membros os sintomas que muitas vezes estão ocultos e demoram muito mais para aparecer na análise individual do que se a instituição for analisada como um todo.

Ainda segundo MORETTO (2001), a posição do analista para Freud era a de um tratamento do sujeito psíquico, o sujeito do inconsciente com o objetivo de um desvelamento do que está oculto para um alívio das angústias e sofrimentos dos sujeitos. Por isso a autora diz que a psicanálise é nitidamente diferente das outras áreas que cuidam do paciente no hospital, desde os médicos até enfermeiros, serviço social, entre outros.

Mas se pensarmos que o analista virá de encontro com o sofrimento para aliviar as pressões (defesas) que o inconsciente exerce sobre o ego, estaremos incorrendo também em um erro de interpretação. Embora o analista perceba, pontue e coloque tudo o que o paciente precisa fazer, e mesmo que esse o faça, exatamente como lhe foi ordenado, de nada irá adiantar a terapia, ou o resultado será muito aquém do esperado. Quem na realidade vai de encontro com o inconsciente é o próprio paciente através da sua palavra.

O ato de resignificação das vivências passadas que é possibilitado através de uma analise bem direcionada acaba por trazer ao paciente um alivio de suas angústias que são a princípio o desejo diante da terapia, mesmo que isso não fosse a real demanda do sujeito do inconsciente. E pode-se dizer que nunca o é, visto que, este conteúdo da demanda propriamente dito, está recalcado por camadas e mais camadas de lembranças e significações de certa forma conflitantes e faltantes em si mesmas. Em outras palavras o conteúdo da demanda se encontra no Sujeito do inconsciente enquanto que o conteúdo do desejo se encontra no ego.

Para ilustrar esta questão entre demanda e desejo, QUINET (2008) diz que “Assim como o ser da coisa nunca é atingido pelo significante, o desejo está no próprio deslizamento do significante que busca se realizar de significante em significante. É isso que confere ao desejo seu aspecto enigmático:... Você acha que é aquilo e já não é.”.

Enquanto que o desejo nunca atingirá verdadeiramente a demanda devido a função metonímica do sintoma, quando o cliente consegue descobrir a real demanda dos seus desejos o conflito tende a enfim se desfazer. Este desfecho como dito anteriormente, não é nem uma vitória nem uma derrota, mas um certo gozo apenas pelo fato de que a resultante do processo traz sempre uma certa paz. O processo de análise trará como resultado um relembrar e resignificar as histórias passadas e com isso o sujeito poderá enfim “descansar”.

A situação analítica sempre deve partir do pressuposto de que o inconsciente está presente no discurso a ser decifrado, o discurso do sintoma, o discurso falado pelo corpo, pelo sujeito. Embora seja um discurso falado, ele nem sempre é um discurso da linguagem vernácula. Temos por exemplo o corpo que fala, ou até mesmo e principalmente, a palavra desconexa que caracteriza o chiste ou o ato falho. O sujeito fala, mas este sujeito é o sujeito do inconsciente.

Diferentemente da clínica, dentro do hospital os sintomas mais evidentes são da ordem do real, do corpo do sujeito. Embora também haja o sintoma da ordem do inconsciente a análise deve ser muito cautelosa e o analista muito mais atento na escuta e na percepção do que está ocorrendo com o paciente do que na clínica.

Um dos casos comentados nas aulas durante os sábados, a psicanalista havia relatado que em uma manha escutou de uma de suas pacientes seguinte discurso: “chegue mais perto que quero vomitar”.

Se pensarmos no vômito, o organismo realiza um ato de expulsão, de colocar para fora o que está fazendo mal. Da mesma forma, o vomitar do sujeito em análise é por para fora o que não está fazendo bem, e muitas vezes é um ato reflexo do corpo humano para preservar sua integridade mental Neste caso, em uma instituição hospitalar as condições eram favoráveis aos dois vômitos, primeiro pelo estado de paciente, segundo pelo estado de analisando.

Como dizer que esta ação real do corpo não é também um sintoma, ou o alivio de um sintoma psíquico e não apenas físico?

Dentro do hospital o real atinge o sujeito de tal forma que muitas vezes se faz necessário levantar as defesas do ego para depois trabalhar as questões de ordem psíquica para que possa ocorrer uma transformação do sujeito e dos significados que a experiência da hospitalização traz para o sujeito.

Freud (1923) diz que o trauma é uma “experiência que, em curto período de tempo, aporta à mente um acréscimo de estímulo excessivamente poderoso para ser manejado ou elaborado de maneira normal, e isso só pode resultar em perturbações permanentes da forma em que esta energia opera”.

Compreender o sujeito marcado pelo trauma do real, ou seja, por uma experiência que o sujeito passe, em que seu corpo não pode se recuperar de forma normal, como uma doença ou uma internação hospitalar para exames de diagnóstico, constitui o primeiro passo para encontrar o sujeito que está hospitalizado. O paciente hospitalar está em estado de paciente enquanto se encontra hospitalizado, embora este estar em estado de, não significa por tanto que ele seja apenas este estado transitório.

Em contrapartida temos a equipe médica, que também é marcada pelo trauma da real ferida biológica instalada no outro. Esta equipe também deve levantar as defesas psíquicas necessárias para poder lidar com cada paciente que chega até eles. Em especial a da sublimação.

Enquanto o paciente lida com o sofrimento de si mesmo, a equipe lida com o sofrimento do paciente, porém ambos lidam com o sofrimento dos sujeitos outros que estão por detrás do rótulo de profissionais e de pacientes. Todos os “hospitalizados” lidam com as feridas de todos, sejam feridas orgânicas ou psíquicas, todos sofrem. Este sofrimento na instituição pode ser uma das demandas do psicanalista hospitalar.

Um dos maiores mistérios que permeia a existência do ser humano é a questão da morte. De tempos em tempos nós nos damos conta de que ela um dia chegará, mas vivemos nossas vidas como se ela nunca fosse chegar. A hospitalização é sempre um momento a mais em que as pessoas se percebem finitas e isso é causa de grande angústia nos seres humanos.

De acordo com ARNAO (2008), o ato de compreender, ou seja, de aprendizado do ser humano, ocorre através das representações. Quando algo acontece a sua volta, primeiro ocorre as impressões no corpo humano, e depois esta energia é representada psiquicamente.

Considerando a teoria psicanalítica, quando ocorre um encontro com algo que não tem uma representação psíquica o ser humano tende a fantasiar sobre. No caso da morte, ninguém ainda passou por estas experiências, então as defesas se levantam em forma de fantasia para proteger o ego. O acontecimento da morte acaba gerando então angústias nas pessoas que estão próximas, ou em situação parecidas a do sujeito que deixou de ser.

Todos os sujeitos hospitalizados, seja por vontade da própria cura ou pela obrigação imposta de um desejo que deseja curar, passam pela experiência da finitude da vida mais próxima do que as pessoas que não foram submetidas à hospitalização. O fim fica evidente nos corredores dos hospitais e com isso o medo e acima de tudo as defesas que o ego tem para que não se veja como um daqueles que irão findar.

Também existe a questão da dor. A dor é uma das principais demandas que leva as pessoas aos hospitais, a dor que afeta a todos e embora de maneira diferente, todos estão sempre se precavendo contra ela, seja se cuidando para evitá-la ou em casos de psicopatias severas, se auto infringindo alguma espécie de ferimento para evitar uma dor maior, para evitar a dor da consciência de ser um ser faltante.

Nos hospitais também são encontrados outros sofrimentos que se seguem e se somam ao sofrimento das doenças. O abandono, o preconceito, o medo, o descaso, a insegurança.

Embora os pacientes sejam os representantes destas questões, a equipe hospitalar nunca ficaria imune aos casos que se apresentam dia após dia diante deles se não fossem as defesas do ego.

Aliás, ao nos aprofundarmos em alguns casos, nem mesmo as defesas egóicas são suficientemente fortes para neutralizar o sofrimento intenso do sujeito. Segundo KOVÁCS (2001) às vezes o médico busca fazer até mesmo o impossível para salvar a vida dos seus pacientes, mas mesmo assim quando eles morrem fica um sentimento de que algo mais poderia ter sido feito. Um paciente que morre é sempre uma ferida narcísica para a figura onipotente médico.

De acordo com a mesma autora, em alguns casos quando o paciente expressa o desejo por apressar a morte, pois não suporta mais viver o sofrimento em que se encontra, alguns médicos buscam incessantemente um especialista que possa dar um maior suporte e também um diagnóstico de que o desejo por morrer, é na verdade um ato psicótico ou alguma forma de depressão mais grave. Tudo o que alguns médicos tentam fazer na realidade é provar que o paciente está mentalmente incapaz de tomar decisões acerca de si mesmo.

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