segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Psicanálise para quem?

"Psicanálise é o nome: 1) de um procedimento para a investigação de processos psíquicos que de outro modo são dificilmente acessíveis; 2)de um método de tratamento de distúrbios neuróticos, baseado nessa investigação; 3) de uma série de conhecimentos* psicológicos adquiridos dessa forma, que gradualmente passam a constituir uma nova disciplina científica."(Freud, 1923 p.274).

Nada melhor que começar a falar de psicanálise introduzindo o que o próprio criador da psicanálise pensava sobre ela.

Freud, em diversos textos deixa claro que a psicanálise não é uma forma de patologizar o indivíduo através de uma série definida de diagnósticos e nomenclaturas que cristalizariam o sujeito em sua posição de sofrimento.

Dito de outra forma, Freud, em toda sua obra não estava tão preocupado em catalogar sintomas diversos e agrupá-los sob um ou outro nome de psicopatologia que diria sobre as características dos indivíduos de sua época. Ao contrário, Freud estava muito mais preocupado em dar condições para que o paciente pudesse dizer sobre si mesmo, seu sofrimento, seus sintomas, e, quase que por acaso, percebeu junto com seus pacientes que quando eles diziam sobre o que os fazia sofrer, os sintomas geralmente cediam e os pacientes frequentemente melhoravam de suas enfermidades.

No início de seu trabalho, Freud foi convidado para traduzir para o alemão as palestras de um grande médico e cientista de seu tempo o Professor Charcot, que tinha entre suas pesquisas o trabalho com pacientes "doentes dos nervos" e que sofriam de histeria. A histeria na época de Freud era comum em mulheres, mas também era encontrada em homens, embora devido à nomenclatura (histeria - uma doença que estava ligada a uma desordem no útero - hysteros em grego ) o pensamento da época é que apenas mulheres poderiam ser acometidas por esse mal. O que Freud constatou nas palestras de Charcot que não era verdade, também muitos homens eram acometidos por esse mal que se caracterizava por uma alteração no funcionamento normal de parte ou partes do corpo, distúrbios na visão, na fala ou nos movimentos, porém, toda essa sintomatologia deveria necessariamente não ter nenhuma ligação com alguma doença orgânica constatada.

O que mais chamava a atenção de Freud foi a forma como os sintomas sumiam mediante a técnica da hipnose. Inclusive Charcot costumava hipnotizar dois ou mais pacientes e fazer com que os sintomas fossem trocados entre seus pacientes. Por exemplo: maria e joana foram diagnosticadas como histéricas. Maria não movia seu braço esquerdo, por outro lado, Joana não movia sua perna direita. Após a sessão de hipnose na frente de todos, o sintoma era trocado pelas pacientes. Joana, embora recuperasse os movimentos de sua perna direita, devido à fala do hipnotizador ela deixa de mover seu braço esquerdo, o oposto ocorria com Maria.


O que mais intrigava Freud era o sofrimento que esses pacientes passavam, muitas vezes por toda uma vida, pois tinham uma enorme angústia, dores sem explicações e nem mesmo uma causa que a medicina da época pudesse dar conta. Eram pacientes que estavam "mentindo" para seus médicos, pois fingiam uma doença até então inexistente.

O que ficava claro, é que a histeria, bem como seus sintomas e o sofrimento adjacente a eles, não estava na ordem orgânica, mas antes, respondiam a uma outra ordem, que Freud posteriormente irá chamar de inconsciente.
Com o atendimento dos pacientes chamados de histéricos, Freud abriu todo um leque de possibilidades de tratamento para um tipo de adoecimento que foi nomeado como psiconeuroses. Entre os trabalhos de Freud, destacavam-se principalmente os tratamentos das fobias, das histerias e também das neuroses de angústia.  

Com o tempo, a psicanálise deixou de ser apenas focada em um ou outro tipo de adoecimento, ou seja, já não importava mais o diagnóstico que era dado para que o paciente fosse para análise, mas sim, importava que o paciente tivesse o desejo pela sua cura.

Desta forma, indivíduos melancólicos (chamados de psicóticos maníacos depressivos até a década de 80, e posteriormente de bipolares), bem como psicóticos (esquizofrênicos e paranóicos) começaram a ser atendidos pelos psicanalistas. E o mais surpreendente é que, embora em alguns casos não houvessem a cura propriamente dita, a maioria dos pacientes tinha restaurado sua capacidade de amar e de trabalhar. Justamente em 1914, Freud quando discorre em seu texto chamado "Introdução ao Narcisismo" estava iluminando a compreensão dos indivíduos considerados psicóticos, e possibilitando um caminho de tratamento para além da medicação e do internamento em instituições especializadas como era comum em sua época. Neste texto, Freud diz que a psicanálise tem como objetivo devolver aos indivíduos a capacidade de amar e de trabalhar.

Mas não é apenas um amor ao outro, mas antes, um amor a si mesmo e a sua própria história de vida. Um amor que possibilite ao paciente se ver sem censuras, sem julgamento e que, diante desta visão, possa se dar ao luxo de escolher um outro caminho.

Freud deixa bem claro em seus textos que o adoecimento psíquico está intimamente relacionado com a sociedade em que os indivíduos se encontram. Geralmente as demandas sociais pesam sobre os indivíduos e estes podem adoecer a partir da dificuldade de corresponder a estas demandas. Aqui temos um exemplo do que seria o conflito psíquico: alguém quer algo de mim que eu não posso dar.

Esta fórmula aparece quase que como mágica na evolução da psicanálise como teoria e ciência. O indivíduo teria dois caminhos diante da demanda da sociedade, primeiro corresponder a essa demanda e ser um "bom cidadão". O segundo caminho seria o adoecimento psíquico em que o sujeito não conseguiria corresponder a esta demanda, neste ponto, teríamos o acréscimo do sofrimento, bem como uma série de sintomas podem surgir daí. Angústia, pânico, histeria de conversão somática, dores pelo corpo, enxaquecas, crises de asma, alcoolismo, drogadição, ou seja, de uma forma ou de outra, o indivíduo encontraria um segundo caminho que o fizesse "vítima" e assim, não fosse capaz de "dar conta do recado".

No entanto, aproximadamente em 1920, Freud começou a discorrer a respeito de uma outra questão que estava sempre presente, porém não estava muito claro até aquele momento, que era a pulsão de morte. Freud via em sua clínica que o adoecimento nada ajudava o seu paciente, ao contrário, apenas aumentava ainda mais o seu sofrimento psíquico.

Não era ou trabalhar ou adoecer, não existia essa escolha. Aparentemente os indivíduos adoeciam, muitas vezes eram impedidos do trabalho ou de manterem relações de amor com outros devido à sua condição, mas no discurso deles, também havia um grande sofrimento por não conseguirem darem conta de uma vida "normal".

Freud percebeu então que para além do conflito entre "trabalho - amor X não trabalho - não amo" o indivíduo buscava (na grande maioria das vezes) trabalhar e amar, mas seu adoecimento o impedia disso. Aqui começamos a vislumbrar uma força que era independente do Eu, que se movia por trás do indivíduo e que o fazia sofrer não importando qual escolha ele fizesse. Freud dizia que o adoecimento era resultado do conflito de forças que tinham uma característica inconsciente, mas que era possível trazer à consciência essas forças a partir da psicanálise.

Uma vez que, o que estava ali, no inconsciente fosse revelado à consciência, o paciente poderia falar sobre aquilo e decidir conscientemente (ao menos o quanto for possível) o que queria fazer. Não estaria mais à mercê de suas paixões que o levasse ao adoecimento. E mesmo que isso ocorresse, o paciente saberia identificar o processo, compreender o que estava acontecendo e poderia tomar as decisões de forma a evitar o que seria até antes da análise inevitável.

Cerca de 100 anos se passaram desde o texto de Freud escrito em 1915 sobre a psicanálise devolver ao paciente a capacidade de amar e trabalhar. Muitos avanços foram feitos, o próprio Freud continuamente retornava aos seus trabalhos antigos para reescrever a mudança de seu ponto de vista, porém os psicanalistas ainda continuam nesta empreitada de tornar consciente o que está inconsciente e a partir disso devolver ao individuo a capacidade de amar e trabalhar

Hoje em dia, diversas pessoas chegam aos consultórios com as mais variadas queixas. Tem pessoas que procuram por motivos de adoecimentos reais, outras são encaminhadas por médicos, parentes, amigos, mas que demonstram algo em suas vidas que não vai bem.

Algumas poucas (mas nem tão poucas assim) procuram para se conhecerem melhor, para saberem porque fazem de uma ou de outra forma, mas conforme o trabalho vai acontecendo, geralmente se chega no ponto crucial que se resumiria em uma pergunta: "Porque ainda sofro com isso?".

Poderíamos resumir que todos os pacientes que buscam a psicanálise e tem uma perspectiva de tratamento na mesma, seriam indivíduos que estão incomodados com seus sofrimento e não querem mais sofrer.


... CONTINUA...

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Vitrine Revista - Marco Leite fala sobre nervosismo:

Entrevista sobre Stress, Ansiedade e outros problemas contemporâneos:

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=6Jl45BrAYaI


quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A questão do inconsciente na psicanálise:


O que seria o inconsciente que aparece e tanto falam os psicanalistas clássicos? Seria uma forma de agir, de pensar, ou de falar?

Uma forma de funcionar, o inconsciente é todo um funcionamento que tem um objetivo único a satisfação. Desde meu relatório clínico (TCC) na faculdade, até o cartel a respeito do tema, e ainda hoje, no mestrado e nos estudos paralelos, além da prática, fica cada vez mais claro que o inconsciente é um funcionamento.

O inconsciente não é um lugar, como muitos pensam,  nem mesmo uma grande desculpa para nossos atos "fiz isso inconscientemente" como afirmam algumas pessoas. Freud deixou claro isso em seus textos, embora precisemos de um bom esforço e dedicação para compreender que o aparelho psíquico tem um funcionamento inconsciente.

Diferente do nosso coração batendo que sentimos ele pulsar quando queremos, ou de nossa respiração que paramos de respirar se nos der vontade, por exemplo para mergulhar em uma piscina. O funcionamento inconsciente de nosso aparelho psíquico esta muito ligado ao funcionamento de órgãos internos imperceptíveis, por exemplo, nosso pâncreas que produz a insulina.

Não percebemos seu funcionamento, mas o produto de seu funcionamento esta ali, imperceptível, mas sempre presente. Veja bem que o inconsciente não é como o órgão pâncreas, mas sim o seu funcionamento, silencioso, por trás de toda suspeita, e nem sempre notado. Este tipo de funcionamento podemos dizer que é um funcionamento inconsciente, ou seja, um funcionamento no qual o indivíduo não tem consciência do que se passa em si mesmo.

Temos no aparelho psíquico, desde a primeira tópica proposta por Freud, uma diferença clara entre consciente e inconsciente, na qual Freud afirma que o inconsciente é recalcado, ou ainda, atraído para longe da consciência. Sim, atraído, por algo que ele irá chamar de um recalcado primário. Um traço mnemônico, uma coisa, algo ali que não pode aparecer de forma alguma e que de tempos em tempos insiste em retornar à consciência, seja em sonhos, em atos falhos, naquelas famosas "piadas internas" onde apenas poucas pessoas sabem do que se trata.

Todo este movimento é inconsciente, não a coisa em si, a coisa esta em estado de inconsciente, mas ela não o é desde o princípio assim. O que ela tornou-se é parte de um mecanismo (aparelho psíquico) no qual produz efeitos (ou ainda Afetos) sem a consciência da própria pessoa.

Como por exemplo nos casos de transtorno do pânico, ansiedade generalizada, depressão, angústia, e muitas outras "doenças da alma". Há algo ali funcionamento inconscientemente que a primeira vista parece estar totalmente fora de contexto, mas que na verdade quer aparecer. Este é o trabalho do psicanalista, não apenas trazer isto a tona, mas além de revelar o que esta em estado de inconsciência e também seus efeitos, o psicanalista irá dar a oportunidade de fazer outra coisa com isso, transformando o mal-estar em um mínimo de bem estar. 

terça-feira, 11 de junho de 2013

TDAH, na França, nos Estados Unidos e no Brasil...


Por que as crianças francesas não têm TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade)?




Nos Estados Unidos, pelo menos 9% das crianças em idade escolar foram diagnosticadas com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), e estão sendo tratadas com medicamentos. Na França, a percentagem de crianças diagnosticadas e medicadas para o TDAH é inferior a 0,5%. Como é que a epidemia de TDAH, que tornou-se firmemente estabelecida nos Estados Unidos, foi quase completamente desconsiderada com relação a crianças na França?
TDAH é um transtorno biológico-neurológico? Surpreendentemente, a resposta a esta pergunta depende do fato de você morar na França ou nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, os psiquiatras pediátricos consideram o TDAH como um distúrbio biológico, com causas biológicas. O tratamento de escolha também é biológico – medicamentos estimulantes psíquicos, tais como Ritalina e Adderall.
Os psiquiatras infantis franceses, por outro lado, vêem o TDAH como uma condição médica que tem causas psico-sociais e situacionais. Em vez de tratar os problemas de concentração e de comportamento com drogas, os médicos franceses preferem avaliar o problema subjacente que está causando o sofrimento da criança; não o cérebro da criança, mas o contexto social da criança. Eles, então, optam por tratar o problema do contexto social subjacente com psicoterapia ou aconselhamento familiar. Esta é uma maneira muito diferente de ver as coisas, comparada à tendência americana de atribuir todos os sintomas de uma disfunção biológica a um desequilíbrio químico no cérebro da criança.
Os psiquiatras infantis franceses não usam o mesmo sistema de classificação de problemas emocionais infantis utilizado pelos psiquiatras americanos. Eles não usam oDiagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou DSM. De acordo com o sociólogo Manuel Vallee, a Federação Francesa de Psiquiatria desenvolveu um sistema de classificação alternativa, como uma resistência à influência do DSM-3. Esta alternativa foi a CFTMEA (Classification Française des Troubles Mentaux de L’Enfant et de L’Adolescent), lançado pela primeira vez em 1983, e atualizado em 1988 e 2000. O foco do CFTMEA está em identificar e tratar as causas psicossociais subjacentes aos sintomas das crianças, e não em encontrar os melhores bandaids farmacológicos para mascarar os sintomas.
Na medida em que os médicos franceses são bem sucedidos em encontrar e reparar o que estava errado no contexto social da criança, menos crianças se enquadram no diagnóstico de TDAH. Além disso, a definição de TDAH não é tão ampla quanto no sistema americano, que na minha opinião, tende a “patologizar” muito do que seria um comportamento normal da infância. O DSM não considera causas subjacentes. Dessa forma, leva os médicos a diagnosticarem como TDAH um número muito maior de crianças sintomáticas, e também os incentiva a tratar as crianças com produtos farmacêuticos.
A abordagem psico-social holística francesa também permite considerar causas nutricionais para sintomas do TDAH, especificamente o fato de o comportamento de algumas crianças se agravar após a ingestão de alimentos com corantes, certos conservantes, e / ou alérgenos. Os médicos que trabalham com crianças com problemas, para não mencionar os pais de muitas crianças com TDAH, estão bem conscientes de que as intervenções dietéticas às vezes podem ajudar. Nos Estados Unidos, o foco estrito no tratamento farmacológico do TDAH, no entanto, incentiva os médicos a ignorarem a influência dos fatores dietéticos sobre o comportamento das crianças.
E depois, claro, há muitas diferentes filosofias de educação infantil nos Estados Unidos e na França. Estas filosofias divergentes poderiam explicar por que as crianças francesas são geralmente mais bem comportadas do que as americanas. Pamela Druckerman destaca os estilos parentais divergentes em seu recente livro, Bringing up Bébé. Acredito que suas idéias são relevantes para a discussão, por que o número de crianças francesas diagnosticadas com TDAH, em nada parecem com os números que estamos vendo nos Estados Unidos.
A partir do momento que seus filhos nascem, os pais franceses oferecem um firme cadre- que significa “matriz” ou “estrutura”. Não é permitido, por exemplo, que as crianças tomem um lanche quando quiserem. As refeições são em quatro momentos específicos do dia. Crianças francesas aprendem a esperar pacientemente pelas refeições, em vez de comer salgadinhos, sempre que lhes apetecer. Os bebês franceses também se adequam aos limites estabelecidos pelos pais. Pais franceses deixam seus bebês chorando se não dormirem durante a noite, com a idade de quatro meses.
Os pais franceses, destaca Druckerman, amam seus filhos tanto quanto os pais americanos. Eles os levam às aulas de piano, à prática esportiva, e os incentivam a tirar o máximo de seus talentos. Mas os pais franceses têm uma filosofia diferente de disciplina. Limites aplicados de forma coerente, na visão francesa, fazem as crianças se sentirem seguras e protegidas. Limites claros, eles acreditam, fazem a criança se sentir mais feliz e mais segura, algo que é congruente com a minha própria experiência, como terapeuta e como mãe. Finalmente, os pais franceses acreditam que ouvir a palavra “não” resgata as crianças da “tirania de seus próprios desejos”. E a palmada, quando usada criteriosamente, não é considerada abuso na França.
Como terapeuta que trabalha com as crianças, faz todo o sentido para mim que as crianças francesas não precisem de medicamentos para controlar o seu comportamento, porque aprendem o auto-controle no início de suas vidas. As crianças crescem em famílias em que as regras são bem compreendidas, e a hierarquia familiar é clara e firme. Em famílias francesas, como descreve Druckerman, os pais estão firmemente no comando de seus filhos, enquanto que no estilo de família americana, a situação é muitas vezes o inverso.

Texto original em Psychology Today - 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Grupo de Estudos em Psicanálise - Estruturas Clínicas:

Inscrições e maiores informações: www.hu.psc.br


Ansiedade e seus benefícios mesmo no sofrimento.


Muito comumente estamos acostumados a compreender que tudo o que nos tira de nosso estado aparentemente normal do dia a dia, deve ser visto com cautela, e até mesmo extinguido de nossas vidas.

Com a ansiedade não é diferente. A cultura em que estamos inseridos nos diz que devemos fazer uma limpeza de tudo o que é ruim, de tudo que nos afasta de um equilíbrio, ou ainda, chegar aos extremos de negar em nós, ou rejeitar de nós tudo o que é diferente daquilo que idealizamos para nós mesmos.

Esta atitude muitas vezes traz ainda mais sofrimento, e assim também é com a ansiedade.

Sabemos que a ansiedade gera em nós um mal-estar, e que muitas vezes tira o sono, às vezes aumenta o sono, em algumas pessoas aumenta a vontade e comer, em outras a pessoa fica imobilizada, sem conseguir fazer nada, apática, e até em casos um pouco mais sérios, chega a causar a famosa depressão.

Algumas pessoas procuram os médicos, e começam a tomar medicamentos específicos. Uns para dormir, outros para reduzir o apetite, alguns até para emagrecer visto que estão comendo muito mais do que deveriam. Existem também os medicamentos que irão atuar justamente na ansiedade. Antidepressivos diversos, ansiolíticos, entre outros medicamentos que são mais conhecidos como calmantes. Bom, tudo isso traz uma redução dos sintomas, mas o que estaria gerando esta ansiedade?

A psicanálise percebe que a ansiedade tem dois lados. Primeiro como proteção, um recurso que temos em nós que nos ajuda em momentos de grandes dificuldades específicas. Gostaria de salientar que estas dificuldades são específicas de cada pessoa, ao invés de dificuldades gerais da espécie humana.

Um momento de ansiedade que exemplifica bem seu lado protetor, pode ser encontrado no período anterior às provas. Muitos alunos se dedicam ainda mais aos estudos para se protegerem de um fracasso. A ansiedade aumenta e a pessoa vai se preparando para o amanhã. Isso acontece tanto nas escolas quanto nos trabalhos das pessoas em geral. A ansiedade irá aumentar sempre que temos alguma coisa muito importante para realizar e isso nos ajuda a ter mais forças para realizar com maior precisão e perfeição determinado trabalho.

É claro que em muitos momentos a ansiedade pode também ser ruim para o sujeito. Freud desde 1926 já atentava para este lado da ansiedade, porém, sem classificá-la como uma doença, ou um distúrbio. Ao contrário, a ansiedade generalizada de seus pacientes era tratada com muita conversa, muita atenção e aos poucos, sem o uso da medicação os pacientes iam melhorando e descobrindo os reais motivos pelos quais eles estavam naquele estado. O que diferencia uma ansiedade normal, e que de certa forma é a até mesmo produtiva, de uma ansiedade que traz muito mais sofrimento para a pessoa do que consequências positivas é justamente a capacidade de conhecer os motivos pelos quais a pessoa encontra-se neste estado e qual a reação que a pessoa tem com este momento "do ser".

Vejam bem, não podemos classificar a ansiedade por um tempo determinado. Por exemplo, peguemos duas falas:

"Faz dois anos que não paro quieto, que não durmo direito, vou deitar as 23:00 e acordo umas 06:00 da manhã, sei que sou ansioso, não consigo esperar, as coisas tem que ser pra já.".

Se a pessoa esta convivendo com isso numa boa, tendo relações satisfatórias com os outros e consigo mesmo, não existindo um mal estar específico por parte da pessoa, de fato, não podemos classificar isso como uma doença. Claro que ela pode melhorar, mas ela tem que querer melhorar, tem que ter um motivo real que a faça buscar ajuda, mas para isso ela precisa querer ajuda.

Outra pessoa chega à clinica e diz que:

"Há uma semana não consigo mais cochilar depois do almoço. Quando deito meus olhos se fecham, mas meu corpo parece que não descansa e quando durmo, neste pequeno espaço de tempo, ainda assim tenho sonhos perturbadores. Não consigo mais descansar depois do almoço e parece que acaba estragando meu dia todo, porque fico pensando: o que será que esta acontecendo comigo?".

Esta pessoa tem um problema com a ansiedade? Podemos dizer que sim, pois ela identificou que na vida dela, isso não esta legal. Alguma coisa mudou e ela precisa descobrir o que aconteceu com ela que aquele sono que antes era tão agradável e reconstituinte de suas forças passou a ser um tormento em sua vida.

Percebam que são dois casos em que podemos identificar a ansiedade sem maiores dificuldades, porém no primeiro caso a pessoa encontrou uma forma de coexistir com o sintoma, sem necessariamente extingui-lo de sua vida. Tornou o sintoma da ansiedade produtivo até onde ela conseguiu.

No segundo caso, a ansiedade apareceu como um perturbador do cotidiano da pessoa. Trouxe para ela um mal estar muito grande, não apenas por ter perdido o sono, mas pelo pensamento de que alguma coisa mudou e ele não sabia o que era.

A psicanálise compreende que a ansiedade é apenas um sintoma. Quando digo sintoma, me refiro a um sinal, a um indicativo de que alguma coisa esta para acontecer, ou que precisa ser feita.

O que ocorre em muitos casos é que de repente a ansiedade é apenas um excesso de vida em um corpo em que o sujeito esta cansado da mesmice do dia a dia, muito mais um processo inconsciente do que uma coisa que a pessoa saiba de antemão o que esta acontecendo. É mais um sintoma de uma mudança que se faz necessária para que a pessoa sobreviva aos perigos que vai enfrentar.

Justamente pela característica subjetiva destes problemas, o analista não pode propor mudanças a seu cliente que ele faria em sua vida caso estivesse no lugar dele. Diferente do que acontece no dia a dia, nas conversas com familiares e amigos, o cliente deve encontrar em si mesmo, o que de fato esta acontecendo consigo e o que fazer com isso tudo. Claro que o analista tem seu papel fundamental de acompanhar o cliente nesta jornada, mas interferindo o mínimo possível na vida e nas escolhas das pessoas, sem julgamento moral, sem repressões, sem condenações. E isto é muito importante para quem procura ajuda para este tipo de problema.

Mas mesmo este lado da ansiedade que nos faz sofrer também indica um caminho para nossa proteção, agora os motivos pelos quais estamos buscando tanto uma proteção que não encontramos, e o que tem nos ameaçado que estamos querendo nos proteger, isso precisa ser visto com tempo, com cuidado e também de preferência com o acompanhamento de um bom profissional.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Solidão, escreveria um livro se ajudasse.



De repente a alma se percebe só. Novamente só!

Imersa em uma corrente, presa a si mesma, e além do que imaginava, cada suspiro de respiração, cada gesto de amor, de companhia, de abraço, de sorriso, de amor, é como uma serpente que te prende ainda mais no sonho, na ilusão, de que ainda há esperança para se salvar.

Não, não há. A solidão é terrível, a angústia do estar só não passa desapercebida. Em algum momento, por mais belo e inebriante que seja ela reaprece. Ela esta presente sempre, nunca nos abandona.

Falo para um tipo de pessoa muito especificamente que irá me compreender, mas talvez não. A solidão de si mesmo não pode ser compreendida. Se assim fosse possível, duas almas se compreenderiam e sairiam eternamente deste estado em que só alguns são capazes de experimentar e manter a sanidade, mesmo que, por algum momento.

Dói, assistir um filme com "happy end", mas dói ainda mais ver um outro, em que o casal se desencontra e ver ali, a realidade nua e crua de uma vida inconstante, insegura, e acima de tudo desesperadoramente sem sentido e cheia de desencontros.

Somos construídos para amar e para receber amor, como se isso fosse de fato nos libertar de nossa realidade última, a de que estamos sós. Amamos, somos amados, mas parece que não é o bastante, sobra algo, resta um tanto ainda que fica de fora. Não é possível amar esta parte, não é possível ser completo, nunca.

Incompleto, só resta uma coisa a fazer, cortar esta parte que sobra, que faz marca de falta e que nunca para de crescer. Ama-se, corta o mal pela raiz, mas logo ela renasce, como a fênix das cinzas.
O alcool, as drogas, os amores, as paixões...
São tantas distrações..
Mas nenhuma é eterna.
Nem as reticências duram para sempre. Elas acabam com um único ponto final que quando furado, se atravessa ao outro lado da página. Este atravessamento mostra que há muito mais por lá, muito além de ti, muito além de mim.

Cada momento em nossa história em que insistimos em colocar um ponto final, carcamos o lápis, ou a caneta até rasgar a folha de nossas vidas. Para que? Apenas para cair novamente na armadilha da serpente que mostra uma outra vida para além de nossas escolhas já feitas.

Sim, rasgar o papel das páginas da vida e escrever uma nova história é tentador. Mas aos poucos vamos percebendo algumas repetições. Como em um pesadelo tentamos acordar, mas estamos inebriados com a sensação de aconchego, de carinho, de novidade, de sermos enfim amados e completos. Uma nova história, é possível sim, repetimos a nós mesmos incansavelmente. Insistindo em falar mais alto que aquela pequena e incomoda sensação de que logo logo tudo estará perdido novamente.

Em breve o jogo será perdido, a pagina deverá ser novamente rasgada, o livro reescrito, até que a tinta da vida se acabe.

É triste demais, alguns dirão. Não, não é triste viver assim, tristeza é uma coisa diferente. A solidão que nos acompanha não nos torna tristes. Não é porque estamos angustiados e inquietos com o hoje, com o amanhã, ou mesmo com o passado, que somos tristes. Somos e sentimos outra coisa, apenas isso.

A tristeza como parte, como algo que esta ali e às vezes vai embora. Chega uma hora que ela não dói mais. O que dói é outra coisa, de outra ordem.

Não é uma solidão que pode ser estancada, com um abraço, um beijo, ou um dizer de alguém infinitamente querido: "estou aqui". É angustiante no começo. Lembro-me muito bem dos primeiros momentos em que pude representar esta solidão em minha história.

O mundo continua colorido, os sorrisos, as alegrias, os amores, mas simplesmente, por algum estúpido motivo temos a certeza de que tudo isso não é para nós. É como se fossemos expectadores de um lindo filme, de um romance, de um "felizes para sempre". Mas só que, sabemos que a felicidade não vai durar.

Sonhamos com a solidão, acordamos nela e muitas vezes ela demora para dar uma brecha. Quantos relacionamentos fracassados, quantas vidas desperdiçadas, quanto tempo perdido, quanto medo e sofrimento, por fim, quantos problemas. Apenas porque demoramos a aceitar que sim, somos solitários.

Nossos sonhos, nossas brincadeiras de criança nos remetem a um herói, a um alguém sempre só. Sempre amargurado por um amor perdido, por uma vida inteira que podia ter sido e que não foi, mas que por alguma razão, aprendeu a ser assim.

Sim meus caros, sobreviver a estes estados é complicado. Complicado ainda é não se desesperar. Pânico, angústia, depressão, isolamento social, são apenas nomes, mas que jamais contemplam nossas experiências pessoais.

Na intimidade aceitamos ajuda dos outros. Uma mão amiga, um abraço de um familiar, um beijo da amada (o), um "estou aqui" de qualquer um que nos quer bem. Mas não, isso não passa, a folha tem que ser rasgada novamente, e temos que escrever outra ilusão pois esta não se sustenta mais. A corrente já apertou demais novamente, já é possível sentir na carne a dor, mas não a tristeza, é estranho né?

A angústia representa apenas um ultimo passo. A de que a ilusão foi desfeita, foi destruída e que agora só resta você.

Bom, talvez fosse melhor assim, só você, porque afinal de contas com isso a gente sabe mais ou menos lidar. Só, talvez não consigo mesmo, mas com o fato de estar condenado a estar só. Uma pena, sim uma pena perpétua.

Perpetua, como no cemitério, a casa dos solitários, esta é a vida que algumas pessoas tentam viver. Não nos critiquem porque muitas vezes nos isolamos ou não queremos sorrir. Não nos condenem a "tristes, deprimidos, em estados de pânico, melancólicos", ou qualquer outro estado enunciado nos manuais de psiquiatria e psicologia da vida. Quando estamos carentes apenas queremos colo, apenas queremos o outro, ali onde ele esta, onde ele estava. Somos insaciáveis em determinados momentos, mas na maioria deles vivemos de esmolas, de um sorriso de um estranho, de um bom dia no elevador, de um sol que volta a brilhar, de uma chova que começa a cair.

Vivemos de momentos curtíssimos, como uma brisa que traz consigo o cheiro da chuva. Com o barulho do vento assobiando lá fora, isso sim é vida, acontecendo sempre, eterna independente da gente. Somos o contrário do egoísta, não temos uma "minha vida" temos a vida em nós e sabemos que ela se manifesta quando quer. Enquanto isso a gente se distrai, mas ela é solitária, pois carrega consigo também a morte.
A folha que cai lindamente da arvore depõe contra toda a majestade e força estrondosa da árvore, pois ela também ira um dia morrer. Nossa solidão não é tristeza, é outra coisa, é muito além das palavras, dos termos, das presenças, das companhias, dos amores e dos licores.

Nossa solidão nos encontra a noite, nos sonhos, ou durante o dia, quando ouvimos "tchau". Quando estamos no banheiro, ou no caminho para casa, ou para o trabalho. Quando vamos a qualquer lugar e simplesmente não temos com quem compartilhar aquele momento. Quando de fato percebemos o quão único e especial somos cada um de nós. Não por sermos melhores, incompreendidos, piores, ou qualquer outro julgamento de valor, não!

A solidão tem um que de vida nela. De possibilidade que os encontros com os outros não permite. Mas ao mesmo tempo de coisa única, de incompreensibilidade. Para alguns, de terror.

Mas não fique triste, por favor, não se entristeça por nós que somos assim!

Isso nos entristece e muito, saber que nossos amados e amantes se entristecem por não conseguirem nos alcançar no fundo de nossas almas. Estamos lá por algum motivo, sabe?

Somos de lá, nos protegemos lá, descansamos nas tempestades de nossa alma que sobrevive a este turbilhão de coisas acontecendo ao mesmo tempo, sem sequer notar nossa existência.

É por aí o caminho para ter uma vaga ideia de nossa vocação. Vá ao lugar mais alto, abra os olhos e veja tudo o que puder, depois lembre-se de sua insignificância. A solidão tem a ver com esta insignificância, por isso não posso dizer de uma tristeza, mas de uma liberdade.

A minha inexistência me permite escrever qualquer coisa, me permite ser quem eu quiser, me permite aos poucos me determinar da forma como eu gostaria. Mas aqui amigos, novamente já estamos escrevendo no livro da vida, uma página cheia de ilusões, de devaneios, de distrações. No final das contas, estas páginas também serão arrancadas, visto que são ilusões apenas para apaziguar nosso verdadeiro eu, nosso solitário e insignificante eu.

Gosto de encontrar-me com insignificantes como eu, que se percebem assim. Que saibam de sua insignificância, de sua solidão e que não tente me tirar da minha, mas que me de a mão, para que caminhemos juntos, na amizade, no respeito e acima de tudo, em nossa própria solidão.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Aos Visitantes do Blog:

Gostaria de informar e agradecer a todos os que tem me acompanhado que mudamos de endereço em Londrina. 

As mudanças foram necessárias de acordo com a crescente demanda pelo serviço. O que por um lado é muito bom, pois tanto pacientes, quanto amigos, e familiares acreditaram no meu trabalho e me apoiaram nesta difícil decisão rumo a um lugar melhor.

Bom, neste momento de mudanças, de fato, percebi que o blog ficou desamparado (para utilizar o termo que venho trabalhando) e quase que em último plano na minha vida. Porém, outas áreas foram tomando corpo e aos poucos se destacando como por exemplo algumas publicações em jornais específicos como o "Jornal da Gleba" aqui em Londrina e também o jornal "Psicologia em Foco" produzido em Maringá, mas com circulação mais ampla em toda região do norte do paraná.

Algumas escolhas precisaram ser feitas neste tempo. Dediquei-me mais à leitura e formação da prática clínica, à congressos internacionais, à celebração de convênios com algumas empresas, instituições, sindicatos, e também com alguns convênios de saúde. O mestrado também tem me tomado um bom tempo em meus dias. Mesmo assim, o blog continuou recebendo cerca de 2.000 visitas mensais. Antes de minha parada estava com cerca de 4.000 visitas, mas compreendo que o espaço se tornou um local de pesquisa, e de conhecimento agregado, muito mais do que o que havia sido proposto anteriormente, um espaço de discussão.

Agradeço imensamente a todas as 2.000 visitas mensais, e espero nestas "férias" voltar a escrever aos amigos internautas com maior frequência assim que possível.

Não apenas aos amigos internautas, mas à todas as pessoas que vem me apoiando nas mudanças fundamentais para, até mesmo, uma melhor qualidade no atendimento clínico. Em novo espaço físico, mas com a mesma proposta de instigar o sujeito a saber sobre si, de devolver às pessoas o que de humanidade delas que se perdeu durante a existência. Aos poucos, vamos construindo uma prática psicanalítica humana, baseada em Freud, mas que vai além, que passa por Lacan, mas que se reconstrói a cada encontro, a cada sessão, a cada olhar.

Em cada palavra, em cada gesto, em cada suspiro, em cada silêncio, desvelar o inconsciente ali presente, mas nunca com a utopia de que é necessário saber de tudo sobre si. Abandonar este ideal de onipotência para aos poucos perceber que, talvez, somente assim, a vida ainda pode ser diferente, ainda pode surpreender.

Fica o convite a todos, para visitarem o novo espaço assim que desejarem!

Grande abraço e até breve.

Marco Leite

terça-feira, 11 de setembro de 2012

TDAH - Déficit de atenção e Hiperatividade: por Alfredo Jerusalinsky

Diagnóstico de Déficit de Atenção e Hiperatividade. O que pode dizer a Psicanálise?

Por Alfredo Jerusalinsky

(Conferência proferida na Fundación para el Estúdio de los Problemas de la Infância, Centro Dra. Lydia Coriat, em Buenos Aires, junho de 2003) Transcrição: Norma Filidoro (revisada pelo autor).

Para começar, acho interessante pontuar o estatuto simbólico que assume, nas crianças, um transtorno motor. O conto “Final de Jogo” de Julio Cortazar, publicado no seu livro Ceremonias (referimos aqui a versão original castelhana) nos oferece um exemplo de conseqüências não somente poéticas, mas também e incontornavelmente, no campo da razão lógica. Não vou resumir aqui esse conto – o que seria certamente um atentado contra a fineza literária de um dos melhores contos que já tem se escrito sobre o mundo das crianças – mas sim acho oportuno referir o que ele nos informa. Na antípoda da hiperatividade encontramos a paralisia ou a inibição? De qualquer forma transformar paralisia em inibição constitui já um primeiro passo na tentativa do afetado de outorgar uma significação a sua impossibilidade. Embora não seja essa uma significação facilitadora, é, sem dúvida, um “movimento” endereçado a situar seu membro paralítico no campo da relação com o outro. É a partir desse “movimento” – sobretudo quando se trata de uma pequena criança – que os outros movimentos podem chegar a ser possíveis. Desinibir é algo que já virá a se fazer, definitivamente, no campo das significações, ou seja, no campo do outro. É por essa via que o paralítico enlaça seu membro a ordem simbólica extraindo-lo da tragédia de repousar para sempre no campo do real. É evidente, hoje em dia, as conseqüências que isto pode ter operando sobre a neuroplasticidade própria da infância.

Quem se atreveria a afirmar, na atualidade, que um membro paralítico tratado na pura re-articulação de seu mecanismo tem as mesmas conseqüências psíquicas, e mesmo cerebrais, que um tratamento onde o membro faz parte de uma matriz simbólica sustentada por um sujeito, que o inclui como parte de sua relação com o outro? Pois bem, no conto de Julio Cortázar uma menina esconde sob o jogo das estátuas sua paralisia cerebral. O olhar de um rapaz que passa fugazmente num trem, a faz imaginar ser a escolhida de seu amor. As amigas a enfeitam e recobrem de brilhos que tornam mais imperceptível seu defeito. Aliadas desejantes de um desfecho feliz, não atinam a compreender que quanto maior a distância entre a majestade da imagem e a miséria de sua rigidez, maior a dor da menina que se sabe não ser a máscara da estátua aderida a seu corpo, mas que nisso descobre – uma dor que, embora torturante, não é inútil – também não ser um puro corpo inerte. É se sonhando no olhar do outro – o jovem rapaz, o príncipe de sua pequena história – onde ela encontra seu ser e onde o movimento de seu braço, por modesto que for, adquire todo seu sentido.

O conto de Cortázar está exatamente no avesso da hiperatividade e do déficit de atenção. Se aquela menina precisou, para descobrir quem ela era, passar pelo valor simbólico da máscara que encobria sua paralisia e distrair sua atenção do membro que lhe negava o movimento, não será que nossos “hiperativos” e “distraídos” também precisam passar pela experiência da relação com o outro para impor uma significação a sua agitação que lhe mostre que vale a pena moldar seu movimento, e que venha, por essa via, a descobrir o que o arrasta sempre para outro lugar daquele que se lhe demanda? Ainda, levando em conta a neuroplasticidade, tais sintomas são causa ou conseqüência?

Em segundo lugar, vou me dedicar a analisar alguns estudos de investigação sobre a Síndrome de TDAH (Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade), também chamada CHADD ou Children’s atentional deficit disorder. Também chamada ADDH.

Um dos estudos mais interessantes que encontrei é realizado por investigadores espanhóis cujo orientador se chama Miranda Casas. Esse estudo se intitula Evaluación e intervención con niños pre-escolares con manifestaciones de trastornos por déficit de atención con hiperactividad y conducta disruptiva. Conduta impulsiva é uma das categorias diagnósticas do DSM IV.

Antes de passar à análise detalhada desse estudo que reúne as conclusões de 65 estudos realizados, quero colocar em evidência o modo de proceder de alguns laboratórios a respeito desta questão. O laboratório Novartis, um dos fabricantes da Ritalina (metilfenidato), que é a medicação mais habitualmente usada neste suposto transtorno, Novartis Pharmaceutical Corporation, publica um folder de difusão, destinado a médicos, que estimula o uso da Ritalina. Trata-se de um estudo realizado por MTA Cooperative Group, extraído dos Archivos Generales de Psiquiatría de 1999, n°56 2.10831086 que foi, por sua vez, publicado pela American Academy of Pediatrics (AAP), especificamente pelo sub-comitê destinado à investigação do déficit de atenção e hiperatividade.

Devo dizer que estes estudos publicados em inglês são apresentados por este laboratório como uma espécie de resumo estatístico do seguinte modo: no que concerne aos sintomas impulsivos e hiperativos, que se supõem que formem parte essencial da TDAH, é dito que o uso da medicação Ritalina apresenta após 14 meses de uso, uma eficácia de 56%. Também afirma que a efetividade do tratamento combinado, ou seja, o uso da Ritalina mais tratamento comportamental, mais tratamento social (isto é, o treinamento dos pais e professores) apresenta uma efetividade de 60%. Afirma também que o tratamento comportamental apresenta uma efetividade de 45% quando isolado, sem medicação e que o tratamento comunitário isolado apresenta uma efetividade de 36%. O que não está dito neste gráfico é que, em 38% das crianças, o tratamento medicamentoso isolado não apresentou nenhum efeito, isso está publicado em letra menor nos estudos que acompanham o folder. Quer dizer que temos que dedicar, pelo menos, um par de horas à leitura para nos inteirarmos disto, apesar de que, de modo quase instantâneo, nos inteiremos, através dos gráficos, dos resultados “positivos” da medicação.
No entanto, é curioso, porque a conclusão que se tira olhando os gráficos é que se aos 14 meses a efetividade da medicação foi de 56% quer dizer que em 44% não teve eficácia. O laboratório o apresenta somente do lado da positividade.

Os investigadores que encontraram, não 44%, senão menos que isso, ou seja, que o medicamento não teve eficácia em 38%, dizem que isso demonstra que o medicamento deve ser usado com muita prudência, já que não está demonstrado que tenha verdadeira eficácia. Quer dizer que para os investigadores basta que 38% não reaja positivamente para dizer que não se deve confiar em demasia na medicação, porém, para o laboratório basta que 56% faça algum efeito para dizer que o uso do medicamento é altamente recomendável.

Os investigadores e a AAP observam que, ainda que se possa colocar a hipótese da existência desta síndrome, a diversidade de superposições que os signos apresentam com outras patologias levanta um interrogante sobre sua especificidade. O laboratório não disse nada disto, senão que nas 579 crianças investigadas, entre sete e dez anos de idade, se verifica a presença da síndrome, de uma síndrome sobre a qual os investigadores se perguntam acerca de sua especificidade. Qual será o motivo desta sutil diferença na apresentação dos resultados da investigação?

Isto coloca em evidência que o interesse que movimenta a indagação acerca de um possível modo de sofrimento das crianças, no caso dos investigadores, guarda uma discrepância significativa com o motivo que o laboratório evidencia nesta divulgação. Investigadores e laboratórios não coincidem em seus interesses. Há na instrumentalização das investigações para mais além da intenção do investigador. Pode-se discutir a metodologia ou a conceitualização do investigador, porém não acusá-lo da implementação, dessa sutil, mas decisiva, torção que um laboratório pode fazer de suas conclusões.

O primeiro fato a questionar é o critério com que os laboratórios difundem este tipo de investigação. Vamos, então, analisar a metodologia e os critérios com que os investigadores, honestamente, tentam legitimar a presença de uma nova síndrome com a intenção de detectá-la e curá-la.

A conclusão do estudo da MTA Cooperative Group diz que “nosso estudo tem uma série de questões que não foram respondidas, que consideramos fundamentais” e que são as seguintes:

-Há algumas crianças em que esta medicação não é permanentemente necessária?
-Por que em alguns casos o uso da medicação, para obter algum efeito, tem que ser prolongado enquanto em outros casos não?
-As descobertas sobre as melhorias nos tratamentos combinados, no caso da amostra tomada, teriam obtido igual nível de êxito sem a medicação?
-Qual é a proporção, no tratamento combinado, devida a uma ou a outra coisa?
-Qual dos dois tratamentos deveria continuar para obter resultados persistentes?
-Será que persistirão as melhorias registradas quando essas crianças forem maiores? E, se assim for, isso se atribuiria à medicação ou à terapia comportamental?
Estudos posteriores dos nossos sujeitos, após os 14 meses, são necessários para responder algumas destas perguntas críticas que nenhum estudo pode até agora responder. Este reconhecimento não os impede de concluir que, é pertinente falar de TDAH e que é importante fazer os três tratamentos (segundo se lê no Abstract).
Além disso, dizem que se fosse necessário sacrificar uma intervenção, seria a comunitária; se tivéssemos que sacrificar duas, seria a comunitária e a comportamental; a última a sacrificar seria a intervenção medicamentosa. E isso quando o tratamento combinado das duas terapias não medicamentosas não apresenta diferenças significativas nos resultados obtidos, comparando com os resultados obtidos com o uso da medicação somente. No entanto, a conclusão é que se deve usar o medicamento. Qual o fundamento que valida tal conclusão?

Metodologicamente isto não se sustenta: não é sustentável a conclusão acerca do uso preferencial da medicação. Ou, pelo menos, não do uso isolado da medicação. Não se sustenta que seja apresentada como o tratamento central.

No estudo de Miranda Casas, afirma-se que o diagnóstico de TDAH não pode efetuar-se antes dos sete anos; entretanto recomenda-se que o diagnóstico se faça antes dos sete anos por uma razão perfeitamente plausível: qualquer patologia diagnosticada precocemente tem um grau de mobilidade maior do que se fosse diagnosticada mais tardiamente. Em função disso, é razoável que se recomende que o diagnóstico se faça antes. O que não parece muito razoável é que se faça antes que o sujeito portador conte com as condições que permitam realizá-lo.

Trata-se de um estudo que se dedica a validar indicadores que permitam que o diagnóstico de TDAH se realize antes dos sete anos e que em estudos longitudinais permita a verificação da existência desta síndrome. Para verificar a existência mesma de uma síndrome que não se pode diagnosticar antes dos sete anos, se propõe diagnosticá-la quando ainda não se pode diagnosticar, para que se verifique que o que depois dos sete existe ou se supõe que exista, realmente existe.

No que se fundamenta o diagnóstico de TDAH: em entrevistas e escalas de estimativa preenchidas por pais e professores, técnicas para observação direta do comportamento e aplicação de procedimentos de avaliação centrados na criança. Ou seja, a metodologia proposta para diagnóstico é fenomenológica, nem sequer clínica: é exclusivamente fenomenológica por se basear na presença ou ausência de certos comportamentos.

Assim está dito: para sua avaliação devem-se seguir os critérios diagnósticos aplicáveis às crianças em idade escolar. Ou seja, para diagnosticar TDAH em crianças em idade pré-escolar se segue os critérios diagnósticos aplicáveis a crianças em idade escolar. Entretanto, diz o mesmo estudo, já que as pré-escolares exibem com freqüência comportamentos impulsivos apropriados para sua idade e já que estes tendem a diminuir na medida em que a criança adquire habilidades pró-sociais e de tomada de perspectiva (no sentido de ‘saída do egocentrismo’), necessita-se realizar comparações com esses progressos evolutivos, que os sintomas apareçam em dois ou mais contextos, que não haja indícios de dano neurológico prévio, nem transtorno generalizado do desenvolvimento ou transtorno psicótico. Nisso têm razão. Somente deixa à margem de um diagnóstico diferencial, as neuroses. Isto se deve a que a palavra neurose tem sido suprimida do DSM IV, o que implica uma transformação diagnóstica em direção à fenomenologia, não à clínica.

Apesar de que para diagnosticar TDAH em crianças pré-escolares sigam-se os mesmos critérios usados para as crianças em idade escolar, e apesar disto merecer a observação de que muitos desses comportamentos são apropriados às crianças pequenas, o informe afirma: “... a utilidade deste instrumento para o diagnóstico de TDAH na primeira infância se põe em evidência nos estudos que demonstram ser possível classificar corretamente uma porcentagem elevada de crianças hiperativas com idades entre três e seis anos". Ora, não dá para diagnosticar, mas dá para classificar? A que tipo de classificação estão se referindo se não é a nosográfica?

O mesmo estudo afirma: "... levando em conta as inconsistências provocadas pelo amplo processo de desenvolvimento das habilidades implicadas neste transtorno, damos ênfase à observação dos comportamentos e das condutas não-adaptativas durante o processo de avaliação e em particular, nos conceitos naturais (sic). Atualmente, não existe um sistema de classificação empiricamente validado para o diagnóstico do comportamento perturbador e, mais concretamente de TDAH".

Quer dizer que os investigadores admitem que não há um método certo, consistente com a nosografia do DSM IV, para a realização de diagnóstico nas crianças pequenas.
Segue: "Conseqüentemente, não existe um método confiável para avaliar a continuidade dos problemas comportamentais precoces, nem tampouco é possível identificar os fatores etiológicos". Quer dizer que a causa pode ser qualquer uma. "E a variabilidade das respostas das crianças às medicações estimulantes não permite confiar plenamente em sua eficácia..." No entanto, devemos medicá-las. É quase uma religião.

Ninguém diria que o que descrevem não tem nenhuma base (caberia aqui nos perguntarmos seriamente de que base se trata), por que fenomenologicamente encontramos crianças agitadas e crianças distraídas, o que acontece é que nada permite afirmar que as melhorias sejam próprias à administração da medicação. Não está claro que a medicação seja pertinente. Tampouco está claro que elas padeçam de uma alteração originariamente neurológica em todos os casos em que se apresenta tal comportamento. Além disso, na maioria das crianças em que a medicação produz algum efeito, deve-se esperar 14 meses para que estas mudanças se estabeleçam. Em idades precoces, uma intervenção psicológica no prazo de 14 meses, na grande maioria dos casos, obtém modificações altamente significativas, sem contar que o transcurso mesmo de 14 meses na infância costuma estar acompanhado de mudanças que dificilmente tornam comparável a criança do início com a criança do fim de esse lapso, especialmente no que se refere aos itens propostos para o diagnóstico do TDAH.

Quais escalas são utilizadas para esta avaliação? São utilizados três tipos de escala: o primeiro tipo são as escalas específicas de hiperatividade; o segundo são as escalas de variação situacional; o terceiro são as listas gerais de problemas. Estas listas gerais de problemas são respondidas por pais e professores.
As escalas específicas de hiperatividade são muitas e diversas, porém pode-se sintetizá-las da seguinte maneira. A Associación de CHADD mostra em sua página quais são as perguntas mais freqüentes. A primeira é: meu filho tem THDA? Qualquer pai pode se fazer esta pergunta. A resposta a esta pergunta é: todas as crianças (sic) podem, eventualmente, ter uma atividade excessiva (sic). Sua atenção também pode, eventualmente, ser breve (sic). No entanto, se seu filho é mais ativo que outros de sua idade, então tem TDAH. Este não é o único indicador, há outros: que a criança tenha esquecimentos freqüentes, perca seus pertences, seja desorganizada, seja inconstante em seus pensamentos, que seu professor afirme sua dificuldade em permanecer sentado, que não consiga esperar que suas perguntas sejam respondidas, que preste mais atenção ao redor que a si mesmo (ou também o contrário), que manifeste agressividade, que apresente dificuldades acadêmicas na aprendizagem da língua e da matemática. Nessa página consta que, se a criança apresenta estas características, seus pais estão autorizados a pensar que seu filho tem TDAH e devem levá-lo para uma avaliação (neurológica?). Temos aqui um resumo do que são as escalas específicas de hiperatividade.

As escalas de avaliação situacional comparam o comportamento da criança em diversas situações: na escola, em casa, no clube. Para os comportamentalistas, a situação é caracterizada pelo físico, o entorno, o local. Não se trata de diferentes situações, nem das significações produzidas em torno da criança em cada âmbito. O que perguntam é o mesmo em cada um desses âmbitos: na escola e em casa. Essa escala se complementa com a de conduta para os pais: como se comportam os pais é o quê eles fazem concretamente (não o que os inspira, seus desejos, suas intenções). A EPC tem 99 perguntas que são destinadas a avaliar a relação entre a competência social das crianças e o comportamento de seus pais.

Estas escalas se propõem a registrar condutas anti-sociais, problemas escolares, timidez, retraimento, transtornos psicopatológicos (enquadrados no DSM IV, ou seja, no mesmo padrão), problemas de ansiedade, problemas psicossomáticos... Ou seja, tudo.

Na tentativa de circunscrever esta entidade nosográfica a um dano neurológico específico, o seja, na tentativa anatomista deste estudo, dizem o seguinte: "Certos estudos que tentam estabelecer os correlatos neuro-anatômicos do comportamento em crianças com TDAH, têm sugerido que certas anormalidades na estrutura do córtex pré-frontal e suas interconexões com outras regiões cerebrais especificamente relacionadas com uma disfunção fronto-estriada, são características do TDAH. As dificuldades das crianças em idade escolar com TDAH parecem então estar associadas com o domínio do funcionamento da zona frontal, ou seja, a auto-regulação de funções executivas como a fluidez verbal, impulsividade, perda da inibição e manutenção da atenção, assim como a organização e monitoração da conduta".

Entretanto, também afirma: “... mostram-se evidentes as diferenças nos comportamentos circunscritos ao funcionamento da região pré-frontal. Assim, mesmo que algumas das habilidades associadas a esta região só alcancem um nível de desempenho adulto aos 12 anos, em geral apresentam seu período maior de desenvolvimento entre 4 e 7 anos, sendo que o nível de execução adulta se alcança, aproximadamente aos 10 anos de idade. Somente uma minoria de estudos neuropsicológicos analisou o impacto do dano frontal em sua progressão através do desenvolvimento, devido à escassez de lesões localizadas e de ferramentas de avaliação apropriadas, bem como à falta de parâmetros claros de avaliação e à dificuldade para criar tarefas que permitam avaliar a função e habilidades circunscritas à área pré-frontal".

Apesar de todas estas afirmações, a conclusão afirma que o TDAH deve-se, seguramente, a uma alteração na área pré-frontal (não havendo, até o momento, suficientes estudos que apóiem tal afirmação, nem metodologia que permita fazê-los).

Não teríamos nada contra essa circunscrição já que, seguramente, por obra do que chamamos neuroplasticidade, se houvesse alguma alteração importante na matriz simbólica que molda a maturidade do SNC, seria bem provável que pudesse vir a fabricar-se alguma disfunção cuja localização não é registrável (mesmo que alguma vez pudesse chegar a sê-lo), nessa área. Mas o que deve ser dito, sem dúvida, é que não sabemos.

O que fica em pé a respeito do TDAH? Certamente um grupo de boas pessoas que tem uma profissão que os leva a interessar-se pelas dificuldades das crianças já percebeu que quando uma criança tem problemas, eles aparecem em várias áreas ao mesmo tempo. Quando uma criança tem problemas é muito difícil encapsular ou delimitar esse problema a uma área específica. Detectado isto, supuseram que esta manifestação diversificada da dificuldade devia obedecer a uma unidade funcional de transtorno. Como se a interconexão entre estas dificuldades fosse produzida por uma certa conexão da funcionalidade de seu comportamento. Esta suposta unidade funcional poderia se apoiar em dois pontos:

A atenção que neurologicamente, desde o ponto de vista das neurociências básicas, ninguém sabe o que é... Tenho buscado tudo o que neste sentido poderia chegar a me informar e a resposta dos neurocientistas é: "não sabemos em quê consiste a atenção". Falo da investigação básica. Trata-se de uma investigação ou de investigadores básicos que não tem nenhum interesse corporativo, nem em capturar pacientes, nem em vender medicação.
No terreno da atenção, não tem havido avanços dos conhecimentos neurobiológicos como se tem no terreno da memória, da percepção, da linguagem ou da sexualidade. Por isso ninguém pode afirmar que o TDAH tem um correlato neurobiológico e o uso "experimental" da medicação tem os resultados que acabamos de analisar, ou seja, incertos, inconsistentes para afirmar conclusivamente que cura.

O outro ponto que permitiria supor uma unidade conceitual – algo da ordem do imaginário, é a inibição: os mecanismos inibitórios de controle do movimento. Porém há mais: supõe-se que esta unidade funcional de controle seja autônoma. Quer dizer, que não poderia alterar-se por outras causas senão, exclusivamente, pela alteração dessa unidade funcional mesma; ao contrário, não haveria maneira de justificar um diagnóstico específico. Para justificar um diagnóstico específico é necessário supor uma etiologia e a etiologia supõe um ponto causal que neste caso seria a alteração (anatômica ou neuro-química) de esta unidade funcional. Se esta unidade funcional dependesse de outras, então, ao não ser autônoma, a causa poderia estar mais atrás ou mais dispersa ou ser mais ampla e complexa. Assim, já não se justificaria o diagnóstico específico porque haveria que diagnosticar algo que englobasse também a outra causa... Ou as causas que estão mais atrás, ou ainda algo que não é da ordem de uma relação linear ‘causa-efeito’ mas da ordem da sobre-determinação, ou seja, da convergência num ponto de diversos fatos de modo tal a produzir uma significação que não está previamente contida em nenhum deles.

Até aqui, a análise metodológica tal como a apresentam os que a propõe. Agora nosso ponto de vista sobre esta questão.

Como anotação entre um e outro capítulo, devo dizer que é importante, quando alguém faz a crítica de uma proposição psicopatológica, indagar no seio mesmo da metodologia de quem a propõe, porque é de supor que, se alguém pudesse ter alguma razão em sua contrapartida é porque existem lacunas no interior mesmo da demonstração do que se propõe. Vale a pena dar-se sempre este trabalho, porque na discussão com aqueles que nos propõem estas coisas (são verdadeiramente coisas), é muito importante mostrar quais são as lacunas que eles têm em sua própria metodologia, porque é a única chance que temos de nos fazer escutar por eles, supondo neles uma honestidade em sua proposição. Não creio que seja um bom procedimento dividir o mundo entre bons e maus e pensar que os maus são os outros e que como nós somos os bons, temos razão. Vale muito mais supor, não que todos somos bons, mas que todos somos bons e maus ao mesmo tempo, embora isso não diga nada da verdade de nossas afirmações. Dividir os bons e os maus é um procedimento tão religioso como o que eles propõem.

Qual nosso ponto de vista nesta questão? Para apresentá-lo vou-me reportar a três conceitos:

1. Conhecimento.
2. Memória.
3. Inteligência.


Vou iniciar pela inteligência.

É um efeito da modernidade a redução da inteligência a sua expressão lógica do real. A redução logicista da inteligência é uma obra da modernidade, a partir de Descartes. Antes não existia. A inteligência se foi reduzindo ao campo da lógica e da racionalidade por obra, em grande parte, das contribuições dos positivistas, especialmente Locke e Hume que demandaram à psicologia que construísse um corpo teórico que permitisse afirmar a correspondência entre o percepto (o que é percebido), o perceptum (a representação que disso se faz) e o percipiens (o agente da percepção). Isto é uma reivindicação dos filósofos positivistas ingleses que não encontraram na psicologia de seu tempo tal construção. É por isso que a partir de Locke y Hume e com o mesmo fundamento filosófico y epistemológico começam a surgir psicólogos ou investigadores psicológicos que buscam este casamento entre o objeto (percepto), a representação do objeto e o aparato perceptivo. Assim surge Von Helmholtz que na segunda metade do século XIX escreve o "Tratado de Óptica" que investiga a estrutura do olho para ver como o percipiens registra o perceptum, e avalia o nível de correspondência ou transformação que há entre um e outro pólo da percepção óptica em função da mecânica física da luz e a transformação de suas trajetórias. Esse tratado foi publicado em 1879 apesar de que as investigações são de 30 anos antes. É o ponto de partida de muitos estudos psicológicos como os de Wundt, Keller, Koffka, a teoria da Gestalt... Embora quem mais tenha contribuído na análise desta correspondência tenha sido Piaget. Ele foi quem mais contribuiu para o reducionismo do conceito de inteligência a sua expressão logicista, controvertendo a idéia proposta por Aristóteles. Na realidade, a lógica aristotélica foi progressivamente se tornando desconhecida e distanciada pela modernidade. Para Aristóteles, paradoxalmente o pai da lógica, a inteligência era aquilo que permitia a inteligibilidade do discurso, segundo figura no capítulo II de seu "Organon". Esse conceito de inteligência foi se dissolvendo até o ponto de hoje em dia parecer muito natural assimilar a inteligência ao nível de complexidade lógica das operações. É em função do reducionismo psicologicista que Piaget tem sido muito bem acolhido na psicologia norte-americana. Essa psicologia não é totalmente contraditória ao comportamentalismo. Abandona a ingenuidade skinneriana do condicionamento direto e introduz, como um neo-behavorismo, a lógica como intermediação. É por isso que na psicologia comportamentalista norte-americana encontramos muitas adaptações de Piaget, embora devamos reconhecer um certo forçamento de sua teoria para isso.

Estes comportamentalistas que acabo de citar, tanto os da Academia Norte-americana de Pediatria como os da Espanha, utilizam neste estudo conceitos piagetianos (não somente, mas inclusive) que não entram de forma alguma em contradição com suas afirmativas.

Desde o ponto de vista psicanalítico, a inteligência não se dá nem ao nível de complexidade lógica da razão nem como a inteligência emocional de Goleman. A inteligência para o psicanalista conserva todo seu sentido aristotélico: aquilo que torna inteligível o discurso, ou seja, não somente a ordem da razão, mas também, e em certo modo fundamentalmente, sua poética Como é muito fácil verificar, esta versão da inteligência inclui a lógica sem se resumir a ela. Apesar da pretensão da ciência de apoiar-se na lógica matemática e nos modelos matemáticos para deixar seus enunciados a salvo das vicissitudes do desejo, nem mesmo nesse discurso (matemático) as coisas funcionam assim. Posso demonstrar isso brevemente: Lacan retoma na lógica de Russell, Pierce, Frege y Kantor, o tema da lacunariedade do discurso matemático. Faz isso com dupla finalidade. Primeiro para demonstrar que a suposição, de que a "vida emocional”, ou a lógica do desejo e a lógica da linguagem, não teriam um suporte na matemática, é falsa. Não é que a vida psíquica seja ilógica e que a vida científica seja lógica, essa dissociação não existe. A segunda finalidade é demonstrar que a ciência, por mais alheia que se imagine às vicissitudes do desejo, não o é.

Vou mostrar-lhes, muito brevemente, um exemplo disto. Cantor disse que há números que não se podem escrever: 1,9999999999999... Qual seria o último número que poderíamos escrever antes de passar do 1 ao 2? Impossível. Quer dizer: há uma lacuna. Para preencher esta lacuna, os matemáticos criaram algo que se chama os números imaginários. Lacan usa esta escritura (o signo da raiz quadrada de menos um igual i(a)). para dizer que isso é a imaginarização do que não se pode escrever, ou seja, daquilo que sobra como resto e que não temos como escrever.

Vocês devem estar se perguntando o quê isso tem a ver com o TDAH. Em seguida verão. Quando alguém não tem como escrever algo que lhe afeta, imagina alguma coisa. Quando alguém não sabe o quê fazer, faz magia (como diz minha pequena filha Clara de oito anos, depois de ver Harry Potter). E assim procede também a ciência; mesmo com o discurso matemático que parece ser o mais isento das conseqüências deste vazio. Até mesmo essa variante do discurso humano, que se apresenta como o mais isento dos efeitos desse resto, padece das conseqüências dessa falta radical que nos caracteriza e nos transforma em falaseres.

Assim também procede a ciência e creio que isso nos explica porquê estes bons investigadores no lugar onde não encontrem nada, coloquem algo, coloquem um nome com a melhor das intenções de poder manejá-lo. O problema é que não sabem que estão pondo algo no lugar em que não há ou no lugar em que o que há não é necessariamente da natureza que eles supõem, ao menos não necessariamente. A partir disso, são levados por um suposto lógico incoercível e inquestionável a afirmar com certeza o que não têm certeza nenhuma.

No plano da inteligência ocorre o mesmo: em nossa clínica, quando tropeçamos com problemas na inteligência, nos vemos na dificuldade de explicar através do reducionismo logicista o quê se passa com uma criança que tem dificuldades de aprender ou de prestar atenção em alguma coisa. E sabemos que isto excede tanto a lógica suposta da inteligência como também excede uma suposta lógica homóloga do SNC.

O segundo conceito é o de memória. Existem estudos acerca da memória que distinguem quatro tipos de memória. Uma memória antiga ou de largo alcance, uma memória imediata, uma memória de trabalho e uma memória de processamento. Todo o mundo conhece a memória de largo alcance, também a imediata. A de trabalho é indispensável para levar a cabo certos procedimentos que requerem da antecipação de uma tarefa; pode armazenar-se ou apagar-se. Por outro lado, toda a informação passa pela memória de processamento para ser transformada em dados armazenáveis ou descartáveis; é uma memória que não guarda nada concreto; se chama memória por que contém a informação que permite a recordação acerca do sentido, da direção, em que deve ser processado um dado. Uma espécie de ‘memória burocrática’

Esta diferenciação é útil, e não existe ainda uma expressão clínica por que se trata de descobrimentos recentes. Talvez possamos encontrar um equivalente dela no conceito de ‘transcrições’, na “Carta 52” de Freud a Fliess (1895), ou mesmo no “Projeto de uma Psicologia para Neurologistas” (1896), também de S. Freud. Assim como Lacan se deu ao trabalho de incorporar à psicanálise os aportes que a lingüística contemporânea nos oferece, aumentando sensivelmente o grau de precisão de nossa escuta e nossas intervenções, dessa mesma maneira caberia esperar que nós, os psicanalistas, nos ocupassemos da questão da memória à luz desses descobrimentos, assim como também fez Freud em seu momento, transformando as teorias da memória da época.

O importante é que, mais além da diferenciação desses quatro modos de funcionamento da memória, ela não obedece a um mecanismo inatamente fixo senão que depende do modelamento que a matriz simbólica lhe imponha; tanto que o modo de funcionar dessas quatro formas vai depender desse modelo. É importante considerar dessa forma a questão da memória porque no TDAH, justamente, um dos traços predominantes é que a memória falha alternativamente dessas quatro maneiras - isso se consideramos as coisas desde o ponto de vista funcional. Se considerarmos desde o ponto de vista da etiologia, podemos tomar dois caminhos: ou considerar que algo está alterado originariamente ali onde faz sede, no SNC, cada uma dessas formas, ou bem podemos pensar que a matriz que as organizou mudou o rumo da memória. Obviamente que a psicanálise elege este segundo caminho que, por sua vez, não se dissocia da primeira colocação já que hoje é perfeitamente verificável como de um modo neuroplástico, o SNC vai obedecer em seu funcionamento àquilo que ali se intime ou, dito mais psicanaliticamente, àquilo que ali se inscreve.

Elsa Coriat, em “Psicoanálise e clínica con bebés”, oferece uma bela metáfora, que fala de um papel em que se escreve o desejo dos pais e que o papel que está ali, o SNC, vai dizer o que ali se escreve.

Vamos passar à clínica: verificamos que o mais marcante na manifestação clínica de uma criança diagnosticada com TDAH reside nos problemas com o conhecimento, seja esse conhecimento da ordem da organização de suas praxias, seja da ordem da aprendizagem escolar, seja da ordem de saber como deve compor ou organizar sua relação com os objetos e as pessoas. Quando aparece uma criança com esse diagnóstico, o que se apresenta clinicamente a nós é que tem problemas com o conhecimento. O quê é o conhecimento? Desde o ponto de vista psicanalítico, o conhecimento não pode estabelecer-se se o enunciado que o sustenta não possui um estatuto simbólico. Assim vemos crianças que podem funcionar de um modo mais ou menos adaptado ou concordante com a mecânica física das coisas, cujos enunciados não têm no discurso um estatuto de conhecimento. Não podem formular sobre esse conhecimento uma enunciação que transite pelo campo do outro, assim a condição fundamental para que um enunciado seja considerado da ordem do conhecimento não se cumpre, ou seja, a questão da verdade. Provavelmente, se fazemos uma prática puramente no âmbito da saúde, teremos um conjunto orgânico que funciona mais ou menos adequada e harmonicamente, mantendo um certo crescimento sustentado em tamanho e forma, bem como, talvez logremos que desordens funcionais maiores, como poderiam ser as convulsões, as distonias ou as paralisias se façam presentes em uma medida mínima. No entanto, nenhum desses procedimentos garante que o quê a criança conquiste como conhecimento, ou como capacidade de funcionamento físico, a ordene no campo do desejo. Ou seja, a ordene em um campo que não é nem da saúde nem da educação, mas da ordem do inconsciente.

A articulação entre saúde e educação, desde o ponto de vista dos discursos de cada uma, é impossível. Somente pode-se entender a imperiosa necessidade da articulação entre esses dois discursos se levamos em conta que eles têm efeitos e causas na produção inconsciente que conduz ao sujeito. Aí é onde a articulação entre a saúde e a educação se torna não somente necessária, mas também conceitual e estruturalmente viável.

Sábado passado supervisionei um caso de una menina de 4 anos muito falante que dizia coisas assim: "o cachorro tem o gato para que mamãe me dê de comer e eu não tenho mamãe sem que os panos me vistam por isso...". Um delírio não estruturado no qual era possível escutar a ressonância de frases ditas pela mãe. O que aparecia nessa enunciação era, primeiro, a dificuldade de saber o quê ela queria dizer e, segundo, qual era o estatuto de verdade disso que ela enunciava. Assim, se alguém lhe perguntasse o que é um gato, ela respondia dizendo "pipoca bem quentinha". Teríamos que averiguar se seu gato gostava de pipoca, porque então assim poderíamos ver se ela não estava demasiado longe na associação daquilo que lhe era perguntado. Esse grau de liberdade na associação mostra que não há recalque; o que falha ali é o que recorta o deslizamento da cadeia significante de modo tal que ela fica obrigada em sua sintaxe a uma certa semiótica que vem do Outro (mesmo que isso pese a Chomsky).

Chomsky tem uma frase famosa: "Idéias verdes incolores dormiam furiosamente", com a qual pretende demonstrar que ali todo o mundo reconhece uma frase mesmo que não queira dizer nada, e que isso demonstra a existência de uma gramática generativa inata, dado que o reconhecimento da condição de frase pressupõe que, mesmo não dizendo nada, responda a certas regras gramaticais. Alguém com essa mesma frase poderia dizer, à luz do delírio dessa menina, exatamente o contrário. Esta frase seria consistente com o sistema enunciativo dessa menina se alguém pudesse dizer que é possível reconhecer ali uma frase, porém a menina não pode reconhecer no que diz uma frase. Isso demonstraria que a gramática generativa não é inata. Provavelmente Chomsky nunca teve nenhuma experiência com crianças delirantes. Diferentemente de nós que, a partir de nossa experiência, podemos verificar que há crianças delirantes que, embora falem, não sabem que o que dizem é uma frase. Mais que isso, tampouco sabem que é uma palavra, ou o que é uma letra, nem onde colocar o ponto. Porque a pontuação é filha predileta do recalque, é filha do corte que separa as coisas das palavras. Que coisas se separam em primeiro lugar? O peito da boca, a voz da boca, o olho do olhar, as fezes do ânus. O corte se realiza não por uma arbitrariedade, senão em nome de uma certa ordem que não é inata, e que mesmo quando já se encontra no discurso deve ser inscrita na criança. Por isso que as mães se dão tanto trabalho! Essa modalidade, esse modo de inscrição, é o que chamamos matriz simbólica, e sabemos que vai depender em altíssimo da formação dessa matriz o modo de funcionamento do SNC, da forma de inscrição dessa matriz.

Experiências clínicas de todo tipo nos mostram que a mudança do "meio ambiente" ou a mudança na proposição dessa matriz, muda as coisas em uma criança e, como os mesmos pesquisadores mencionados dizem, quanto mais cedo melhor.

Mas sabemos que fazer um diagnóstico extremamente cedo, em um tempo em que não se pode fazer, acaba por fabricar aquilo que se supõe evitar. Se alguém introduz o diagnóstico, se ministra a medicação precocemente e se trata uma criança como se fosse "um TDAH", ao final podemos ter razão. Isso é o que encontramos na clínica. Por isso, o psicanalista opta por não saber. Não porque sejamos burros, mas porque reconhecemos que esse lugar que a ciência preenche artificialmente está vazio, porque esse vazio cumpre uma função decisiva que é permitir que a matriz simbólica seja tal, seja simbólica. Ou seja, que o signo lingüístico não represente a coisa que lhe deu origem. A coisa que deu origem a essa marca tem que se apagar para que esse signo se torne polissêmico. Se soldarmos uma criança a um suposto positivado de um lugar anatômico que falha, a vida dela vai se desenvolver ao redor desse lugar anatômico.
O quê nós, os psicanalistas, inventamos? Dispositivos que deixam esse lugar vazio. São dispositivos que não são iguais em todos os momentos da vida de um sujeito, porque sabemos que na infância se tramita essa inscrição, esse modelamento e, na vida adulta esse trâmite está, de alguma maneira, concluído. Estamos dizendo que durante a infância temos chance de direcionar as coisas para o melhor ou para o pior. Antecipar-se a uma patologia suposta não faz nenhum favor às crianças. Refiro-me a antecipar-se preenchendo um lugar quando é o sujeito mesmo que deve dar a versão a esse encobrimento.

O que podemos dizer em relação ao TDAH? Podemos dizer que além das inconsistências, da falta de verificação da existência de um correlato etiológico autônomo... Além da impossibilidade científica de afirmar sobre a existência de uma unidade que permita fazer disso uma síndrome, o que podemos dizer é que o surgimento dessa síndrome e a proliferação de seu diagnóstico comportam um traço iatrogênico importante na clínica para as crianças.

Não creio por isso que devamos suspender as investigações, senão devolver-lhes sua seriedade e, em segundo lugar, não implementar clinicamente, nem no diagnóstico nem na estratégia de tratamento, algo que não se sabe.

Então, em que pode contribuir o discurso psicanalítico para esclarecer sobre qual conduta clínica seguir? É certo que encontramos crianças hiperativas. A fenomenologia é verdadeira: existem crianças com problemas de memória, de atenção, de aprendizagem, de linguagem, com problemas psicomotores. No entanto, essa fenomenologia se mostra nas crianças "suspeitosamente" concordantes com o que os investigadores chamam uma "dificuldade social". Trata-se de crianças com dificuldades para representarem-se no campo dos outros. A possibilidade enunciativa que essas crianças possuem costuma estar em questão: têm dificuldades no campo da linguagem, embora possam não tê-las no campo da fala.

O que quer dizer essa correlação, esta coincidência do diagnóstico de TDAH, com dificuldades no campo social? Quer dizer simplesmente que a instância do Outro, nessas crianças, está em questão. Quer dizer que aquilo que constitui o corte entre a coisa e o sujeito, a operação que apaga a coisa para que o sujeito possa enunciar de um modo polissêmico o que averigua sobre a coisa, que aquele corte que sustenta a diferença entre o verdadeiro e o falso, entre o ficcional (o que corresponde à ordem do imaginário) e a ordem do simbólico (o modo em que o sujeito mesmo se representa no outro)... esse corte, falha.

Será que as dificuldades sociais são uma conseqüência da síndrome ou será que essa dificuldade social é indicadora do ponto central da etiologia do que ocorre com essas crianças? Colocar-se em uma posição reducionista e organicista é desconhecer a possibilidade, comprovada na clínica de 100 anos de psicanálise na prática com crianças, de que a não constituição da instância do Outro, ou mesmo as falhas nessa constituição, incide nisso que não se sabe o que é, mas que se chama de atenção.

O que é um déficit de atenção? É não saber a que dirigir a percepção. Um déficit de atenção é não poder dar continuidade ao perceptum, não poder produzir no perceptum um ato de nominação que lhe dê extensão simbólica. Se não tem extensão simbólica é porque este objeto não chega ao Outro, não passa pelo campo do Outro, carecendo assim de significação. É por isso que a criança não persiste. Nas crianças que apresentam déficit de atenção e hiperatividade é clinicamente comprovável que a extensão simbólica está reduzida e achatada sobre a coisa. Essa é a razão, e não outra, como dizem os investigadores, de que as crianças não desconheçam ou não recusem a presença dos objetos, mas se limitem a manuseá-los até rompê-los.

Esta síndrome à luz da neurose não é nenhum mistério, nem nenhum descobrimento recente. Que se pretenda, no entanto, essa correlação, nem um pouco comprovada, com as funções pré-frontais, e mesmo se essa correlação se comprovasse... O quê mudaria na clínica? Em princípio parece que nada. Assim como um comportamentalista intervém no campo da relação, um psicanalista também o faz. Qual é a diferença? A diferença que separa o comportamentalista é que seu ato não está desenhado em concordância com aquilo que constitui a inscrição, o modelamento do SNC, e a posição de sujeito para que ele esteja habilitado a representar-se no discurso. Porque seu modo de intervenção se faz objeto por objeto, ação por ação, palavra por palavra... O quê quer dizer que ignora de um modo lato que os humanos não funcionamos de um modo monoaural, coisa por coisa ou palavra por palavra, mas que funcionam mais além da correspondência biunívoca da relação entre o signo lingüístico e a coisa. E, justamente porque funcionamos na polissemia do significante – e isso nos permite nos articular no discurso, a coisa pouco importa.

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Grants For Single Moms